«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste Blog.»

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A jóia secreta do Marão

 

Cascata D'Alto, Vale da Ribeira de Porto Velho

Detalhes do registo fotográfico:
F/3.6
1/100 seg.
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


Escondido e aninhado na vertente sul de Pena Suar, encontra-se um dos mais belos e recônditos vales da Serra do Marão. Neste ermo serrano, a montanha subitamente rasga-se ao meio e duas escarpas quartziticas caem a pique, inclinando-se ligeiramente uma para a outra, deixando no fundo do abismo um apertado corredor, por onde o leito da Ribeira de Porto Velho vai, sofregamente, percorrendo o seu tormentoso e infindável calvário.
Apesar de estarmos no início da Primavera, as condições climatéricas não se apresentaram muito favoráveis para a prática de uma actividade física longa e enérgica, com sol demasiado intenso e uma temperatura excessivamente alta para a época. Claro que a qualidade da luz para fotografar não era de todo a melhor, perfeitamente visível no rosto de frustração quando logo após tirar uma fotografia, visualizava o registo no ecrã da máquina fotográfica e... bem... talvez não seja má ideia apagar...
Apesar de resignado, não pude deixar de fazer uma caminhada relativamente dura (uns 20 km), com fortes e acentuados desníveis, oscilando entre os 500m desde as cercanias da aldeia de Covelo do Monte e atingindo os 1200m, ao longo da formidável cumeada de Pena Suar. Mas todo este esforço era largamente compensado pelo puro deleite de caminhar na montanha, depois de um longo período de isolamento forçado, donde não me era permitido ver para além da merda das paredes cubiculares do meu lar, onde solenemente jazia a enfadonha paisagem dos meus míseros dias. Havia finalmente chegado o momento de usufruir em pleno dos prazeres que só as montanhas podem proporcionar! E nada melhor que calcorrear os ancestrais trilhos de pé posto, sabiamente esculpidos ao longo da vertiginosa encosta daquela que eu, ao longo do dia, humildemente baptizei como a jóia secreta do Marão.


Texto e fotografia © Pedro Durães (Todos os direitos reservados)


terça-feira, 25 de maio de 2021

Um pequeno Evereste


Espinhaço da vertente norte da Serra do Marão, na parte final da subida do KMV Marão

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/320 seg.
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


A Serra do Marão não é, definitivamente, a mais bela e selvagem serra nacional. Não é agreste e bravia, como o Gerês. Nem tão pouco possui a luxúria e a elegância da Cabreira. Não tem uma coisa, nem outra. Mas há algo que distingue o Marão de todas as outras serras: a sua verticalidade. A vertente norte da Serra do Marão é como um espinhaço que se partiu ao meio. Subir uma montanha na vertente norte é como alcançar o topo dum pequeno Evereste. A subida é árdua, o esforço imenso.
Tanto no pequeno Evereste maronês, como no grande Evereste da vida, o fascínio não está no destino final. Está, isso sim, no caminho que paulatinamente vamos fazendo para lá chegar. Apesar de contraditório, é no momento em que o caminho se torna mais difícil, quando a eterna luta entre corpo e mente parece irremediavelmente perdida,  que tudo faz sentido. Na maior das adversidades, o ser humano revela o melhor de si: uma resiliência e capacidade de superação inabalável. Há quem afirme que só começamos verdadeiramente a viver quando saímos da nossa zona de conforto. Não posso estar mais de acordo. E nada melhor que a verticalidade de uma montanha maronesa para que, a cada gota de suor vertida, nos relembremos disso mesmo.


Texto e fotografia © Pedro Durães (Todos os direitos reservados)