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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Para lá do Marão... mandam as fragas que cá estão!

 

Vista para o cume do Marão (1416m) a partir do Portal da Freita (1347m)

Detalhes do registo fotográfico:
F/5.6
1/320seg.
ISO-100
Câmara Panasonic Lumix DMC-FZ8


A alcantilada vertente norte da Serra do Marão faz-me lembrar um daqueles livros esquecidos, repleto de folhas já gastas e amarrotadas, devidamente arrumado no interior de uma qualquer gaveta ou estante. Os escritos que preenchem cada uma das páginas desse velho livro, num determinado ponto da nossa vida, acabaram por de alguma forma nos tocar, avivando sentimentos em alguns casos, e noutros estimulando novos pontos de vista. Poetas como Teixeira de Pascoaes e Miguel Torga (entre muitos outros) tiveram a audácia e o talento de transcrever para letra redonda as múltiplas sensações e estados de alma que as montanhas maronesas despertaram em cada um deles. E se o Marão carinhosamente estende a cauda ondeante sobre o Minho, é na contorcida e flamejada Terra Transmontana onde ele crava as suas garras, como tão bem canta Pascoaes. E é precisamente nessa inexpugnável parede norte que o Marão se difere e se distancia de muitas outras serras. A sua verticalidade é de tal forma imponente e esmagadora, que nos sentimos na pele do pequeno Gulliver, encolhido e assustado, no reino dos gigantes de Brobdingnag.
As fragas da vertente norte não devem ser vistas apenas como um punhado de terra fragosa que se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu. Elas são, como genialmente refere Torga, um belo e arrebatador poema geológico.


Texto e fotografia Pedro Durães © (Todos os direitos reservados)