Introdução
Não. Hoje não vou
contar mais uma história montanheira. O
texto seguinte é pura e simplesmente um desabafo, um deitar cá para fora de uma
série de pensamentos e reflexões. Apesar de não ser mais que um inconsequente e
porventura inútil post, ou
então, como eu tanto gosto de lhe chamar, um grito mudo, a verdade é que ele procura (de uma forma ingénua,
mas ao mesmo tempo intencional) chamar atenção dos leitores para
alguns dos problemas que se vêm entranhando, de forma subtil e por vezes
imperceptível, na nossa sociedade contemporânea.
A foto-reportagem,
apesar de aparentemente encontrar-se descontextualizada do presente texto e dos
temas nele abordados, mais não pretende ser do que um simples e eficaz complemento
visual, onde, e através da fotografia (puramente amadora) o leitor é levado até
às montanhas, e, assim, quem sabe, perceber que há toda uma outra vida que se encontra muito para lá das paredes cubiculares onde jaz a
paisagem dos nossos dias.
“Overdose
Civilizacional” (Texto)
Ando chateado… não comigo, mas com todos aqueles parvalhões para quem a Montanha não é mais do que um lugar distante e o qual (muito) raramente se visita. Ao longo dos tempos tem-se criado a percepção errada de que a Montanha é também um lugar supostamente inacessível, bué desconfortável e acima de tudo selvagem e perigoso.
Ando chateado… não comigo, mas com todos aqueles parvalhões para quem a Montanha não é mais do que um lugar distante e o qual (muito) raramente se visita. Ao longo dos tempos tem-se criado a percepção errada de que a Montanha é também um lugar supostamente inacessível, bué desconfortável e acima de tudo selvagem e perigoso.
Mas apesar de todas estas
conotações negativas em relação à Montanha, porque será que um punhado de tipos
insiste em romper trilhos há muito ignorados, irremediavelmente votados ao
abandono e ao esquecimento? Porquê carregar o peso de uma inútil mochila sobre
as costas quando se adivinha pela frente um longo e penoso calvário pelas
infernais encostas da Montanha? E onde está, afinal de contas, o fascínio que
esta gente sente quando, com a mesma expressão pavloviana estampada no rosto,
detêm-se extasiadas perante o vislumbre de uma simples e ao mesmo tempo efémera
paisagem? E porquê a constante necessidade de partilha de todos esses momentos
com outras pessoas, companheiros(as) dessa… como é que eu hei-de dizer…vadiagem
gratuita?
Para quê ir lá para cima, porquê o reencontro com essa primitiva pureza, se cá em baixo
temos tudo aquilo de que realmente necessitamos para satisfazer as mais básicas
e elementares necessidades, tanto as do inconformável corpo, como as do
insaciável espírito? Tendo o mais comum dos mortais à sua inteira disposição a
mais vasta soma de civilização material e intelectual, porque carga d'água
haveríamos de levantar do sofá e deambular por esses montes fora em busca de algo
que, ao fim e ao cabo, nem sequer sabemos exactamente o que é, numa inútil e
inconsequente quimera, sem aparente fim à vista? E incompreensivelmente, em cada linha de
um simples gesto, no espaço que separa o pensamento da involuntária acção, a
mesma enfastiante
expressão de tédio e desencanto. Na infelicidade que o preenche, na solidão que
o acompanha, o homem contemporâneo limita-se a percorrer de forma apática (embora
consciente) um tormentoso caminho que inevitavelmente o conduzirá a um fatídico
abismo. Será que não há retorno
possível? O que fizemos nós de errado para chegar a este ponto? Qual o caminho
de que nos desviamos?
Na sua devida medida, a
constactação inequívoca de uma cada vez maior sedentarização, uma certa (e
excessiva) dependência de mecanização, e acima de tudo um distanciamento cada
vez maior das pessoas em relação à Natureza, com o consequente corte do cordão
umbilical que outrora ligava as pessoas à terra, aos rios, às rochas, às
árvores… enfim, a toda a fecunda vida que emana dessa transcendental força que
é a Mãe Natureza (a Mãe de todas as mães), não será, porventura, um dos
factores responsáveis pelo actual estado das coisas? Não estaremos nós
demasiado afastados do que é natural e ao mesmo tempo demasiado dependentes de
tudo o que é supérfluo, artificial, metabolicamente sofrendo uma espécie de
overdose civilizacional?
Deixo-vos de seguida um excerto
de um texto do nosso Eça de Queirós,
intitulado “Civilização” (pequeno
ensaio para aquela que viria a tornar-se uma das mais deliciosas obras do
escritor, "A Cidade e as Serras"),
retirado da obra “Contos”, que
explicará (certamente bem melhor do que eu) tudo aquilo que humildemente
(embora toscamente) tentei transmitir ao meu caro e errante leitor. Ora aqui
vai:
«...De resto, que importa bendizer ou maldizer da vida?
Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles
que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e
desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhes seja negrume, não só as léguas
realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol amável. Na Terra
tudo vive! E só o homem sente a dor e a desilusão da vida. E tanto mais as
sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna
humano, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. É no máximo
da civilização que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto,
está em recuar até esse honesto mínimo de civilização, que consiste em ter em
tecto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para
reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso. E ficar lá, quieto, na
sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o
anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore
funesta da Ciência!...»
Pedro Durães
Vista para a aldeia de Codeçoso e montes
circundantes, onde já se avista o primeiro objectivo do dia: “conquistar” o
cume do monte do Ferronho (1217m), canto superior direito
Caminho e placa informativa da Grande Rota 25.1- Caminho Jacobeu Português (Transfronteiriço)
Subida a corta mato rumo ao marco geodésico
do Ferronho (1217m), com vista privilegiada para a colossal Albufeira do Alto
Rabagão (Pisões)
E para os lados do norte já se vislumbra a
cumeada da imponente Serra do Larouco, com o cume da “montanha mãe” ainda
envolto em neblina
Panorâmica a
partir do marco geodésico do Ferronho (1217m)
(Foto
gentilmente cedida pelo amigo H.Miranda)
E é precisamente das entranhas do monte do
Ferronho que brotam as águas que darão corpo e alma ao mítico Rio Rabagão, um
dos 3 principais cursos de água da região do Barroso, juntamente com o Beça
(nascente localizada na Serra do Leiranco) e o Cávado (nascente localizada na
Serra do Larouco)
Planalto barrosão
Maciço central da Serra do Leiranco.
Infelizmente, as turbinas eólicas tomaram conta das terras altas do Leiranco,
mas mesmo assim um dia destes vou ter que colocar lá as botas
Zoom ao bucólico lugarejo de S. Mateus, uma
pequena aldeia “perdida” entre as serras do Larouco e Leiranco
É de facto impressionante a beleza ímpar da
Serra do Larouco, mesmo sombria e carrancuda mantêm uma imponência, uma
altivez, enfim, uma majestosidade de uma autêntica rainha. Lá ao fundo, no sopé
da montanha, encontra-se a aldeia de Gralhas
Ponte do Rio da Assureira. Enquanto que lá em
cima, vocês já sabem…
E aqui estão
os emplastros do dia
(Foto
gentilmente cedida pelo amigo H.Miranda)
Campos floridos localizados no sopé da
montanha do Picoto da Lagoa
Embora à primeira vista possa não parecer,
trata-se mesmo de uma arcaica ponte de pedra com enormes e toscos blocos de
granito a servir de tabuleiro
A partir deste ponto apanhámos boleia da Grande Rota 25.1- Caminho Jacobeu Português (Transfronteiriço),
percorrendo os belos e ancestrais caminhos rurais
Aqui fomos literalmente obrigados a ceder
passagem ;(
Antigo moinho junto aos campos de cultivo
Para mim caminhar no Barroso é sem dúvida
alguma uma experiência única e inolvidável
Muros de pedra sobreposta revestidos com
musgo, árvores centenárias adornadas de líquenes, enfim… uma beleza!
E depois de um dia inteiro a espreitar lá
para cima, surgiu finalmente a oportunidade para vislumbrar (e ao mesmo tempo
recordar) o mítico cume da Serra do Larouco: o Larouquinho (centro da imagem)
«E o burro
sou eu?...»
Um último olhar para a Serra do Larouco,
aquela que eu pessoalmente considero ser não apenas a mais emblemática, como a mais
autêntica e genuína serra barrosã
Adeus Codeçoso, ou melhor: até já Barroso!


