18 de Janeiro
Depois de vários dias de
céus encobertos, uma ténue possibilidade de uma ligeira melhoria em relação ao
estado do tempo levou-me a pôr em marcha um plano que ansiava há muito puder
concretizar: uma travessia pela região do Barroso.
Sabia que a partir do
momento em que colocasse as botas no caminho estaria a desobedecer a uma regra
fundamental nas saídas para a montanha: ia sozinho. É claro que tinha informado
algumas pessoas sobre o meu plano, mas mesmo assim tinha decidido arriscar.
Queria muito caminhar na montanha, conhecer de perto este pedaço do Barroso,
enfim, descansar um pouco de todo o rebuliço citadino e aproveitar para
respirar bem fundo.
Pretendia também
conhecer a denominada GR117 Via Romana XVII, uma das várias vias romanas que outrora
ligaram este pequeno território ao colossal Império Romano. Curiosamente, e tal
como a conhecida Geira (Via Romana XVIII), também esta antiga via ligava a
actual cidade de Braga (Bracara Augusta),
à cidade espanhola de Astorga (Asturica
Augusta), num trajecto com aproximadamente 400Km de extensão!
Como é natural, hoje
em dia são poucos os vestígios que podemos encontrar da antiga via romana. Estradas,
e acima de tudo a construção de barragens (o traçado original seguia ao longo
da bacia hidrográfica do Rio Rabagão, encontrando-se parcialmente submerso pelas
albufeiras de Venda Nova e Alto Rabagão) fizeram com que este importante legado
histórico e cultural se tenha desvanecido na memória colectiva deste povo. Apesar de tudo, nos
dias de hoje ainda é possível encontrar vestígios da antiga via: marcos miliários,
pequenas pontes e pontões, bem como alguns trechos relativamente bem
preservados de calçada romana, se bem que para dizer a verdade tenha havido
alturas em que nem cheguei a dar conta de estar a caminhar na referida calçada,
é que com as intensas chuvas das últimas semanas, os caminhos encontravam-se
transformados em autênticos pântanos, com água e lama a escorrer por todos os
lados! Mesmo assim, foi com relativa facilidade que fui progredindo ao longo do
serpenteado da via e onde pude constactar que apesar da sofrível usura do
tempo, esta importante via continua ainda hoje a servir as gentes e gado de
pequenas aldeias barrosãs.
Caminhar na Via Romana
XVII é também uma oportunidade para observar de perto os usos e costumes e sentir
a boa hospitalidade das suas gentes. Mais do que uma momentânea janela para o
passado, a Via Romana XVII é uma porta que se abre de forma escancarada e
confiada. E ao forasteiro mas não se lhe exige que, entrando, seja digno de merecer a magnificência dessa dádiva.
Pedro Durães
Foto-Reportagem:
Marco miliário na aldeia de Currais
Com os caminhos transformados em
autênticos pântanos, por vezes nem chegava aperceber-me de estar a caminhar na
antiga calçada romana
Uma rápida vista de olhos para a
vizinha Serra da Cabreira, em particular para o seu mais alto e imponente cume:
o Talefe
Panorâmica sobre a aldeia e a área
envolvente de Vila da Ponte
Possivelmente a origem do nome da
aldeia de Vila da Ponte deve-se precisamente a esta ponte em particular, que aparentemente
não tem qualquer relação directa com a Via Romana XVII
Espelho de água no rio Rabagão visto a
partir do tabuleiro da ponte
Paredão da barragem do Alto Rabagão
Albufeira do Alto Rabagão (Pisões)
Mistérios da Serra do Barroso
Vista para as aldeias de Viade (de
Baixo e de Cima)
De vez em quando o sol lá ia aparecendo e as fotografias ganhavam luz e cor
Marco miliário na praça central de
Viade de Baixo. Este antigo marco foi encontrado na albufeira do Alto Rabagão (local por onde a via original passava) e posteriormente colocado neste local
Curiosa imagem de S. Tomé incrustada
numa parede de uma casa
Já repararam no meu “vizinho do lado”?
Cornos das Alturas do Barroso. Um dos
símbolos naturais da região do Barroso
Os caminhos murados e cobertos por
uma densa camada de musgo foram uma constante ao longo do dia
Gado pastando nos lameiros
E aqui está um bom exemplo da
hospitalidade das gentes barrosãs: Assim que cheguei à "Casa do Colmador", para
além de uma arrumação e limpeza impecável, o sistema de aquecimento havia sido
ligado antecipadamente. Com a roupa completamente encharcada em suor e os pés molhados,
já devem ter percebido como eu me senti ao entrar na casa. Ah! Escusado será
dizer que a porta não estava trancada: «Entre quem é!»
Como infelizmente não tive ninguém
para me acompanhar nesta minha incursão pelo Barroso, o serão teve que ser
passado em frente da lareira, tendo como companhia a prosa de Steinbeck e a
poesia de Florbela Espanca
O texto e as fotos do
segundo e último dia desta “aventura” por terras do Barroso estarão concluídos brevemente…

