29 de Dezembro
Há coisas assim… se 2013
começou com uma agradável e surpreendente caminhada pela Serra D’Arga, porque não
terminar o ano da mesma forma? E se assim pensei, melhor o fiz. Bem, na verdade,
fizemos!
Tendo como companhia
verdadeiros montanheiros (pessoas que para além de praticarem actividades relacionadas
com o montanhismo, estabelecem, por elas próprias, uma pura e desprovida ligação
afectiva para com a montanha), lá nos dirigimos uma vez mais ao encontro desta enigmática serra minhota. Aquando
da última caminhada fiquei verdadeiramente surpreendido por encontrar em pleno coração
do Minho este desconcertante amontoado de pedra e rocha. Aqui, deparamo-nos com um
Minho diferente daquele a que estamos normalmente habituados: um Minho com
menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras… Bem, o que quero simplesmente
dizer é que encontramos um Minho menos… verde. Ao invés, pisamos terra nua, e à medida que vamos caminhando deparamo-nos com uma paisagem cada vez mais cinzenta, cada vez mais... ossuda. O caminho faz-se através de imemoráveis carreiros lajeados que a custo lá vão contornando as íngrimes e áridas encostas da montanha. Enquanto que os conterrâneos lavram terra fértil
e irrigada, os de Arga levam os carros de bois serra acima ao encontro das
chãs, por ventura o genuíno e talvez único ouro desta humilde gente. Lá, os animais obtêm finalmente o
merecido repasto, e em certos locais, como se por capricho de forças que nos escapam, um esplendoroso manto verde irrompe sobre a dura e áspera penedia, e a água, fria e pachorrenta, lá vai abrindo caminho ao longo das turfeiras e charnecas do planalto serrano.
A quentura típica das coloridas
e festivas aldeias minhotas esfuma-se perante pequenas e toscas habitações de
granito. Aqui, o minhoto não é pequeno nem castiço. Altivo, veste capa de burel e em vez de uma estridente concertina maneja um tosco cajado de pau.
Nesta serra, encontramos um Minho que não o é, afinal. Não será esta terra e esta gente
uma outra face de um Minho que até hoje não chegou até nós? Talvez...
Pedro Durães
Foto-Reportagem:
Espigueiro, também chamado
de canastro
Ao fundo, no lado direito da foto, situa-se o
lugarejo de Gandra. E no lado esquerdo ergue-se a colina do Cabeço do
Meio Dia (550m)
Formações geomorfológicas
características da Serra D’Arga
É precisamente neste planalto
amplo e lamacento (Chã de S. João) onde nasce o Rio Âncora. No lado esquerdo da foto podemos ver
o curso de água da Fonte da Urze, uma das várias linhas de água que dão corpo e
alma ao mítico rio minhoto
E aqui está o braço mais
comprido do Rio Âncora: o Regueiro da Póvoa, cuja nascente localiza-se no sopé do Alto do Espinheiro
Vista a partir do cume
do Alto do Espinheiro (825m), o ponto mais alto da Serra D’Arga. Ao fundo
podemos ver a envolvente do santuário da Senhora do Minho. Em baixo, uma
chã emerge sobre a dura e áspera penedia
Derivado às chuvas dos
últimos dias os caminhos transformaram-se em autênticos ribeiros, escorrendo
água por tudo quanto é lugar
Mais um local
emblemático da Serra D’Arga: a Porta do Lobo. Reza a lenda que era precisamente
neste local que os lobos costumavam descer em direcção aos lugarejos de Agra
E passada a referida
porta vocês por acaso já repararam quem lá está para nos dar as boas vindas?
Reparem bem no calhau localizado no canto superior direito da foto
Por vezes até chego
arrepiar-me só de imaginar esta gente a subir com os carros de bois serra acima.
Foda-se, vida difícil esta…
Profundezas da Serra D’Arga
(Vale do Regato da Fraga)
Moinhos do Covão
Também aqui (ainda) há
pastores
Mais um belo
espigueiro/canastro. Ao fundo ergue-se imponente e altiva a ossuda Serra D’Arga
Um dos raros bosques
que encontramos ao longo do dia. No entanto devo salientar o riquíssimo valor
ambiental e ecológico destes pequenos bosques, já que o coberto florestal é
composto maioritariamente por seculares carvalhos, sobreiros e azevinhos
E a serra ia ficando
para trás à medida que nos aproximávamos dos pequenos lugarejos localizados nas
vertentes mais abrigadas e irrigadas da montanha
Leito ribeirinho do
Regato da Fraga
Infelizmente, durante a
caminhada fomos informados pela população local de que a mítica ponte do Pontão
do Lobo acabou por cair derivado às intensas chuvas que ocorreram no final de
2013. Será que esta imagem servirá apenas para recordar um tempo e um local aparentemente
condenado ao esquecimento? Será que esta peculiar obra de engenharia serrana
voltará uma vez mais a unir as duas margens do Regato da Fraga?
Complexo de moinhos localizado
próximo da aldeia de Gandra
Sem dúvida alguma mais um belo
recanto na igualmente bela Serra D’Arga
Fonte da Salgueirinha

(Foto gentilmente cedida pelo amigo Alberto Pereira)
Fonte da Salgueirinha

(Foto gentilmente cedida pelo amigo Alberto Pereira)
E aqui está a “tropa”
do dia. E foi assim que o ano de 2013 terminou, na companhia de verdadeiros
amigos. Bem, só me apraz dizer: que venha a próxima! É que 2014 já está aí...
Nota: O percurso efectuado teve como referência o PR4 "Trilho da Chã Grande". No entanto devo referir que foram efectuadas algumas alterações em relação ao traçado original, entre elas a subida ao Alto do Espinheiro (825m).


