E uma vez mais… a Cabreira! Sempre a Cabreira, vai-se lá saber porquê… Na realidade, há já muito tempo que estava nos meus planos (que parecem não ter fim) a realização de uma “cabreirada” por Terras de Basto e aproveitar a ocasião para visitar (pela primeira vez) alguns pequenos aglomerados serranos que por ali se encontram. Estranhamente, ou talvez não, é precisamente ao longo da escarpada vertente este da montanha que podemos encontrar algumas das mais típicas e bem preservadas aldeias da Cabreira.
Partindo da aldeia de
Busteliberne através de um secular caminho de pastoreio, acabamos por ganhar
rapidamente altitude, indo ao encontro de antigas pastagens de montanha. Aqui e
ali, ainda é possível vislumbrar vestígios de antigos muros de pedra sobreposta
e ruínas de pequenas habitações vão surgindo no caminho para espanto de quem
erradamente deambula por aquele local ermo e inóspito.
Antigo caminho de pastoreio que
conduz às pastagens localizadas nas terras altas da Cabreira
Ruínas de uma antiga Branda em plena
Serra da Cabreira?
Enquanto serpenteamos
a pedregosa encosta da montanha, numa curva do caminho, um punhado de viçosos
lameiros apresentam-se como uma lufada de ar fresco na monotonia granítica da
paisagem. O contraste provocado pelo verde dos lameiros, o roxo das bétulas, o amarelo
dos carvalhos e o cinzento das rochas não só fizeram as delícias de uma retina
mais atenta, como acabaram também por dar muita cor e vida à fotografia.
E numa curva do caminho, surge-nos
esta bela paisagem serrana!
Uma “janela” para o Alto do Facho (1121m)
Lameiros ou prados
de lima
Gado Barrosão
E a pequeníssima
aldeia de Porto D’Olho ali estava para nos acolher. Amarrada no sopé da colina
do Outeiro da Varela, esta pequena
aldeia de onde habitam não mais que meia dúzia de almas vai resistindo como
pode ao progressivo abandono e esquecimento que ano após ano vai tomando conta
desta e de outras pequenas aldeias da Cabreira. Do cume do Outeiro da Varela abraça-se uma paisagem belíssima. Aqui, o Minho
ganha altura, diria até, uma certa robustez… enfim, tenta não parecer pequeno e
frágil perante um Trás-os-Montes que se ergue altivo e dominador num horizonte não
muito longínquo.
Vista para a pequena aldeia de Porto D’Olho. No canto
superior esquerdo ergue-se o imponente cume das Torrinheiras (1191m)
Panorâmica da área envolvente da
aldeia de Travassô. Ao fundo já se avista o “vizinho” Trás-os-Montes
Em primeiro plano podemos ver a
silhueta do Monte Farinha. Ao fundo as montanhas do Marão/Alvão
Basta passar na única
rua que trespassa a aldeia de Travassô, sentir a pulsação dessa artéria viva para
ficarmos desde logo com a estranha sensação de recuar largas dezenas de anos
atrás, até meados do século passado. Cercada por uma intrincada rede de caminhos
murados que permitem o acesso de homens e animais aos lameiros e campos
agrícolas, Travassô preserva ainda uma tipicidade arquitectónica invejável,
visível não apenas nas belas casas ao estilo senhorial, mas sobretudo nas mais
humildes (mas não menos belas) habitações, toscamente alicerçadas com o duro granito
da região.
E paulatinamente deixava-mos para
trás a aldeia de Travassô. A colina que se ergue no canto superior esquerdo é o
Outeiro da Varela. No cume encontra-se uma capelita em homenagem a N. Sra. Mãe
da Igreja
Alguns cumes espreitam-nos por cima
de um bosque em tons dourados. É o último fôlego de um Outono visivelmente cansado,
prestes a ceder o lugar a um Inverno que se aproxima a passos largos
Depois de um merecido
e relaxado repasto junto a um lameiro, onde gozamos de um muito bem-vindo sol
outonal, que apesar de não aquecer também não deixava resfriar o corpo, era
chegada a altura de visitar a denominada Área de Lazer de Moinhos de Rei. Na
realidade, trata-se da recuperação de um antigo conjunto de moinhos construídos
no reinado de D. Dinis, primeiro rei que incentivou e desenvolveu a rudimentar
indústria de moagem, numa época em que a actividade era realizada quase
exclusivamente pelo esforço do homem ou do animal. Lição de história à parte, a
área de lazer em si é um local bastante agradável, encontrando-se revestida por
um exótico bosque e onde se localiza também o Posto de Fomento Cinegético
da Serra da Cabreira: conjunto de cercados que visa a recuperação e posterior
libertação de algumas espécies faunísticas da região como o veado, o corço, o coelho-bravo, a perdiz, entre outras. Resta saber se a ideia aqui é criar as
condições com vista à recuperação não apenas das espécies como também (e não
menos importante) habitat, ou então a ideia é pura e simplesmente
alimentar o lobby da caça (i)legal.
A Serra da Cabreira é hoje uma imensa área partilhada por várias associações de
caça, e como todos nós sabemos, caçador que é caçador não pode chegar a casa de
“mãos abanar”! Algum “troféu” terá que levar, alguma vida terá que ceifar…
Área de Lazer de Moinhos de Rei. As mesas e a restante
indumentária dos “pique-niqueiros” encontram-se debaixo das copas dos ciprestes
A levada encontrava-se limpa de mato, o que permitiu acompanhá-la durante algumas centenas de metros J
Apesar de não ser bem visível na
foto, ao fundo encontram-se os cercados do Posto de Fomento Cinegético da
Serra da Cabreira
E Busteliberne
encontrava-se cada vez mais perto, mas antes de chegarmos ao aldeamento ainda
tivemos que parar junto à Ponte da Víbora devido a um “congestionamento de
trânsito” provocado por meia dúzia de vacas barrosãs pachorrentas e visivelmente
(muito) bem alimentadas, que cambaleando ora para a esquerda, ora para a
direita, decidiram ocupar praticamente todo o caminho, e como mais vale prevenir
do que remediar, nada melhor que a malta desviar-se um pouco... A visão que
obtivemos sobre o casario e a envolvente da aldeia de Busteliberne foi algo de verdadeiramente
surpreendente, diria até… mágico! Com a tarde alongar-se e o fim do dia
aproximar-se rapidamente, Busteliberne encontrava-se envolta num “mar” de cores
quentes, com os amarelos, os castanhos e os vermelhos a dominarem e a realçarem
todo aquele cenário verdadeiramente idílico. Foi sem dúvida alguma a cereja no
topo do bolo neste retorno aos montes da Cabreira, desta vez por Terras de Basto.
Envolvente ribeirinha junto à Ponte
da Víbora
Carvalhos “cor-de-fogo” ladeiam os muros de pedra
sobreposta nas imediações da aldeia de Busteliberne
Busteliberne ao fim do dia…
… e toca a tirar rapidamente a foto
de grupo antes que a luz se vá embora!
Pedro Durães