Depois de uma noite
(muito) mal dormida (digo isto supondo que alguém chegou mesmo
a dormir), às 8h30m da manhã já estava a malta a sair da tenda, do carro, do
meio do monte, enfim, do local onde encontraram uma enxerga, e lá se
levantaram, bem, quase todos, já que um ou outro para ser acordado teve mesmo
que receber uns “amigáveis” pontapés no rabo! O que interessa é que a malta
estava toda pronta e animada (aqui também suponho que a animação tenha vindo
“destilada” da noite anterior, se é que me faço entender…) para mais uma caminhada
por esse Barroso fora.
A ideia para o dia
consistia em efectuar um percurso pela serra do Barroso, mais concretamente na vertente
voltada para a Albufeira do Alto Rabagão, desfrutando assim de panorâmicas
fabulosas não apenas sobre o lençol de água da albufeira, como também de todo o
imenso planalto barrosão.
Iniciámos
esta nossa incursão a partir da aldeia de Vilarinho de Negrões, localizada numa
das margens da albufeira, cuja construção da barragem (1958-65) fez com que o casario
da aldeia e os campos agrícolas adjacentes ficassem quase completamente cercados
pela inevitável subida das águas, transformando num curto espaço de tempo Vilarinho
de Negrões numa peculiar… península!
Percorrendo
os ancestrais caminhos de pastoreio, que a pouco e pouco vão-se perdendo
irremediavelmente com o declínio e abandono do pastoreio, lá subimos serra
acima, parando pontualmente não apenas para descansar, mas acima de tudo para
apreciarmos as vistas sobre o espelho de água proporcionado pela albufeira. Do
topo da montanha é que temos a verdadeira noção de toda a imensidão daquele
descomunal lençol de água. Impressionante.
Mal tinhamos acabado de dar os primeiros passos e já as vistas sobre a albufeira e as montanhas circundantes captavam toda atenção
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
À medida que ganhava-mos altitude o
lençol de água da Albufeira do Alto Rabagão revelava toda a sua imensidão
Lá ao fundo encontra-se a península de Vilarinho de Negrões (local de início da caminhada)
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
Panorâmica da Albufeira do Alto
Rabagão a partir do Alto do Serrado
Transposta
a cumeada da montanha entramos de seguida numa zona de planalto dominada por
extensas manchas de pinhal, apenas recortada por alguns viçosos lameiros, acrescentando
deste modo um inegável valor estético à paisagem. A presença dos lameiros era
também um indício de que já estávamos próximos da aldeia de Lamachã, o nosso
próximo ponto de passagem. Enquanto caminhávamos pelas ruelas da aldeia
conversamos com alguns locais e deparamo-nos com umas alminhas que,
curiosamente (ou talvez não), pediam dinheiro aos de “cá”, como forma de apreço
para com os de “lá”. Esta religião católica é mesmo do caraças! Quanto mais andamos,
mais vemos amigos… Bem, vamos lá ao que realmente interessa. Saímos da aldeia
pelos já habituais caminhos rurais, utilizados pelas populações locais para
acederam aos campos agrícolas e lameiros. Uma das características deste tipo de
caminho são os incontornáveis muros de pedra sobreposta, que para além de serem
úteis na delimitação dos campos, foi também uma forma que estas gentes
encontraram para retirar as pedras do terreno, de forma a torná-los aráveis,
que é como quem diz: numa só cajadada, mataram-se dois coelhos! Se os homens e mulheres
de hoje tivessem metade da “fibra” desta gente, certamente que esta nesga de
terra debruada por mar seria um lugar bem melhor.
Continuando
a caminhar pelo labirinto de caminhos que envolve os lameiros, pouco tempo
depois entramos numa nova mancha florestal (novamente pinhal), também ela
rasgada por um sem número de estradões. Tantos caminhos havia que a melhor
opcção foi mesmo “sair de estrada”, enfim, nada a que esta malta já
não esteja habituada. Encurtando aqui, alongando acolá, lá continuamos a subir
a serra rumo ao marco geodésico de Domingos(1142m).
E o que é que nós encontramos no cume da montanha? Claro que só podia ser mais
uma rudimentar capelita (haverá algum cume de alguma montanha em Portugal que a
não tenha?), mas o que realmente importa aqui salientar são as incríveis vistas
que se obtêm sobre a região do Barroso… absolutamente fenomenais! Só é mesmo
pena a existência de uma linha de postes de média/alta tensão muito perto do
local, mas a Albufeira do Alto Rabagão não está lá em baixo apenas com o
intuito de armazenar água, sabemos que é necessário “sacar” a energia produzida...
Transposta a cumeada da montanha entramos numa zona de pinhal, recortada por vários caminhos florestais
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
“Não passes além viajante cristão, sem dar uma esmola
e uma oração, às benditas almas que penando estão”
Lameiros delimitados pelos tradicionais muros de pedra
sobreposta nas imediações da aldeia de Lamachã
Andar “fora de estrada” também tem o
seu encanto, pois neste caso em particular permitiu a passagem por este belo
lameiro
Apesar dos pinhais não serem de todo o mais belo bosque, este até tem o seu encanto
Albufeira do Alto Rabagão vista a
partir do marco geodésico de Domingos (1142m). Em primeiro plano vê-se a aldeia
barrosã de Negrões
Enquanto
descíamos a encosta da montanha íamos ponderando qual a melhor opção a tomar em
relação ao restante caminho que ainda nos faltava percorrer. Aliás, para dizer a verdade, tinha delineado um plano que se
estendia apenas até à subida ao marco geodésico de Domingos, a partir daí seria puro improviso. «Será que tomamos
aquele caminho já ali?» / «Ou não será melhor o outro, lá ao fundo?» / «E que tal se a
malta apanhasse a estrada?» De facto, opções era coisa que não faltava, mas todas elas
caíram por terra quando alguém com um espírito mais “aventureiro” teceu o
seguinte comentário: «E se fôssemos até à margem da albufeira? Talvez seja
possível caminhar ao longo da margem até à aldeia…» Uns
concordaram de imediato, outros torceram o nariz, e lá acabamos nós por ir ao
encontro da albufeira, caminhando serenamente ao longo da marginal,
ouvindo apenas o som embalador provocado pela ondulação e pelo rebentamento das
águas do Rabagão sobre a penedia barrosã.
Com alguma sorte acabamos por
encontrar um trilho de pé posto que conduziu-nos até à margem da albufeira
Quem é que diria que da montanha desceríamos
até ao “mar”?
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)
Se soubéssemos de antemão que iríamos
percorrer a margem da albufeira, o banho era garantido
«(…) Não. Não se pode fugir ao
magnetismo do íman que tudo atrai e que tudo dispõe.» A foto e o texto referem-se à serra do Larouco (3ª montanha mais alta de Portugal continental, com 1525 metros de altitude)
Forno do Povo de Negrões
Adeus Vilarinho de Negrões, adeus
Barroso! Ou será… até à próxima Barroso!
Pedro Durães
Nota: O percurso efectuado teve como
ponto de referência o PR5 "Trilho do Rabagão". No entanto, devo salientar que foram
introduzidas várias alterações ao traçado original, entre elas a descida até às
águas da albufeira, ligando deste modo a aldeia de Negrões à vizinha Vilarinho
de Negrões. Esta opção fez com que o percurso se tornasse circular, o que não
acontece em relação ao PR5 “Trilho do Rabagão”.