A convite de um grande amigo montanheiro, regressei uma vez mais às serranias da Peneda/Soajo. Aliás,
este acabou por ser um daqueles convites ao qual seria impensável dizer que
não. De uma forma, ou de outra, tinha de estar presente. A ideia era um tanto
ou quanto épica, «uma maloqueira», parafraseando o mentor desta caminhada. Basicamente,
o objectivo consistia em atingir o cume da montanha mais alta da serra da
Peneda (1374m) e da serra do Soajo (1416m).
Partindo da aldeia serrana
da Gavieira, localizada num belíssimo vale, rasgado pelo Rio Grande e à sombra
das Quelhas, uma imponente parede
rochosa cravada numa das encostas da montanha, lá seguimos por um antigo
carreteiro em direcção à Branda de Bosgalinhas, a primeira de três brandas que
visitamos durante o dia.
Aldeia serrana da Gavieira. Bem lá em cima podemos ver
a impressionante parede granítica das Quelhas
Antigo carreteiro que liga a povoação da Gavieira à Branda de
Bosgalinhas
Montanhas da Peneda/Soajo
As brandas são
pequenos povoados de altitude que se encontram ocupados apenas durante o Verão
para apoio à actividade pastoril. A sua localização geográfica deve-se acima de
tudo à relativa proximidade com as melhores zonas de pasto da montanha. Após
uma rápida passagem pela Branda de Bosgalinhas continuamos o caminho em
direcção ao planalto de Lamas do Vez.
Este era também um momento pelo qual ansiava há alguns anos a esta parte. E a
verdade é que as expectativas não saíram defraudadas! Decididamente, trata-se
de um lugar único e especial. Uma imensa manta verde estende-se diante de nós
ao longo de vários quilómetros, delimitada de um lado e do outro pelos cumes da
Pedrada (Soajo) e Pedrinho (Peneda). É também aqui, neste
lugar mítico e distante que nasce o Rio Vez.
Branda de Bosgalinhas. Não, este não é o calhau do Conho...
Planalto de Lamas do Vez
Estão a ver aqueles muros lá ao fundo? Pois é, desta vez houve alguém
que se esqueceu de que os muros são para se manter de pé, com cada pedra no seu devido lugar…
Sem que para isso
tenhamos despendido um grande esforço físico, num curto espaço de tempo
estávamos já no cume do Pedrinho, o
ponto mais alto da serra da Peneda, com aproximadamente 1374 metros de
altitude. Era a altura ideal para descansar um pouco, comer qualquer coisa, e,
claro, apreciar as vistas!
Chegada ao cume do Pedrinho
Claro está com direito à foto da praxe
(Foto gentilmente cedida pelo amigo Xavier)
Vista para as terras do Alto Minho a partir do cume do
Pedrinho
Cumprida com êxito a primeira trepadela do dia, era chegado o momento de ganhar novo fôlego para o desafio seguinte. E em relação a esse não havia a menor dúvida, ele estava ali mesmo diante de nós, altivo, imenso… toca a subir à Pedrada! E subimos, subimos, subimos…
Toca a ganhar fôlego para a subida à Pedrada
Finalmente avistamos o
marco geodésico da Pedrada, sim, refiro-me
aquele pedaço de cimento que normalmente encontramos nos pontos mais elevados
da montanha e que indicam a altitude do local, ou na falta de uma placa
informativa há sempre um chico-esperto que fornece a informação aos visitantes
através de uma borrifadela oriunda de uma qualquer lata de spray, mas o que eu
nunca imaginei é que encontraria a figura do Ché nesse preciso local! Divagações
à parte, o local é sem dúvida alguma merecedor de cada gota de suor libertada
na longa e penosa subida.
Do cume da Pedrada descemos até ao fojo do lobo. À
semelhança de muitos outros fojos que se encontram dispersos (a maioria em
ruínas) nesta região montanhosa e bravia, a sua construção acaba por enquadrar-se
tão bem na envolvente paisagística que mais parece ter brotado do próprio solo.
A malta do “inferno da Pedrada”
(Foto gentilmente cedida pelo amigo Alberto)
Cá está o “Ché da Pedrada"
Descida em direcção ao fojo do lobo com o planalto de Lamas
do Vez a dominar a paisagem
Vista a partir do interior do fojo do lobo para as montanhas
da serra do Gerês/Xurés
Lobos, esses não os vimos, mas um simpático pastor residente na Branda de Gorbelas contou-nos algumas histórias sobre eles. Os lobos, esses seres míticos que pontilham o imaginário não só daqueles que obtêm da serra o seu sustento, mas também dos que tiram dela verdadeiro alimento, não para o corpo, é claro, mas para a alma. O fim do dia aproximava-se,
as encostas da montanha iam lentamente ficando cobertas pelo manto negro de um crepúsculo
anunciado, e Junqueira ali estava, a última branda a ser visitada, melhor ainda,
a ser simplesmente contemplada. O dia já ia longo, as pernas já se ressentiam,
o espirito estava, enfim... saciado.
Branda de Gorbelas
Lentamente, o fim do dia aproximava-se...
Aldeia de Tibo coberta pelo manto negro de um crepúsculo
anunciado
Pedro Durães
Nota: Gostaria de deixar uma palavra de gratidão
ao amigo Alberto pelo convite, e também a todos os companheiros/as que participaram
nesta memorável caminhada por esses montes fora. Que venha a próxima!

