20 de Julho
«Era assim antanho. Por
todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em
meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a
identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala
francês, bebe coca-cola, deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário,
assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais
alugados. É um nédio boi capado.»
(Miguel Torga in “Diário
XVI”, páginas 98 e 99)
Já começa a ser um
hábito a publicação de pequenos textos do poeta/escritor Miguel Torga. Já não é
segredo para ninguém a minha profunda admiração pela obra literária do poeta.
Mas Miguel Torga não foi apenas um grande poeta, foi também um grande homem!
Umas das suas principais virtudes era sem dúvida o seu carácter, profundamente
assente em valores humanistas. Aliás, Miguel Torga nasceu e foi criado nas
serras transmontanas, numa comunidade de trabalhadores rurais (aldeia de São Martinho
de Anta, Marão). Desde muito cedo Miguel Torga aprendeu o valor de cada homem,
como criador e propagador da vida e da natureza. Essa sua sensibilidade perante
o quotidiano rural pode ser lida precisamente no texto acima publicado.
Como é natural, o
Barroso de hoje já não é o mesmo aquando das primeiras viagens do poeta, em
meados do século passado. As “garras” do progresso acabam por chegar a todo o
lado, inexoravelmente. Mesmo a este pedaço de terra agreste e distante, chamado
Barroso. As gentes barrosãs, como todas as outras no nosso país, acabaram por
adoptar este “novo mundo”. Como o poeta referiu, o povo «deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário», e embora o
forno permaneça exactamente no mesmo local, a sua utilidade já não é cozer o
pão, mas servir de atracção turística.
O mesmo podemos dizer dos moinhos que por lá continuam a ladear o curso de
pequenos ribeiros, mas já não moem os grãos de centeio para levar para o forno
comunitário… E o casario da aldeia, outrora castamente aninhado e concentrado,
encontra-se agora orgulhosamente disperso e altivo, numa pura demonstracção de “triunfo”
por parte dos filhos da terra, em pleno contraste com a realidade das pessoas
que por lá ousaram ficar, a essas sim, podemos chamar de vencedoras, dignas de todos
os louvores, recusando abandonar a sua terra, o seu lar, o seu parco e
miserável sustento.
Mas as marcas do
progresso (ou será retrocesso?) não se confinam apenas ao interior e à envolvente
dos aldeamentos. O jovem Cávado já não corre livre e selvagem pelo verdejante
vale, uma parede de betão estancou a vida, emudeceu o seu cântico. Das cumeadas
da montanha já não se ouve o lendário uivo do lobo, mas o “arrepiante” e constante
som das turbinas eólicas, que giram… giram… giram...
Apesar de tudo, a
verdade é que os símbolos desse “velho Barroso” continuam presentes. E é
precisamente um dos objectivos do PR4 "Trilho do Rio", servir de janela para
esse mesmo mundo. Apesar da traça arquitectónica das aldeias encontrar-se cada
vez mais descaracterizada, ainda é possível caminhar por becos e ruelas estreitas,
cercados por casas alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados
de colmo, desembocar em pequenas praças e encontrar velhos cruzeiros revestidos
por líquenes, beber em fontes de água fresca e cristalina.
Percorrer os
ancestrais caminhos de ligação entre aldeias, é, por si só, uma experiência
inolvidável. Os caminhos são geralmente ladeados por muros de pedra sobreposta,
encontrando-se cobertos por uma delicada camada de musgo, enquanto que do outro
lado do muro, viçosos lameiros debruçam-se pela encosta abaixo. E por todo o
lado uma densa rede de carvalhos envolve todo aquele cenário idílico. Aliás, é
precisamente no vale do Alto Cávado que podemos encontrar uma das maiores e
mais bem conservadas manchas autóctones de carvalhal no nosso país.
O Barroso de hoje pode
ter perdido a «força testicular» de
outrora, mas sem dúvida alguma é um daqueles locais que nos cativam, que nos
prendem… pelo menos a mim.
Pedro
Durães
Fotorreportagem:
Panorâmica da albufeira do Alto
Cávado
É precisamente aqui que o jovem
Cávado tem o seu primeiro contacto com as paredes de betão das albufeiras
Panorâmica da aldeia de Frades
Típico caminho rural
Vale do Alto Cávado. Do lado esquerdo
podemos observar a cumeada da serra do Larouco, do lado direito e bem menos visível
o castelo medieval de Montalegre
Cruzeiro no centro da aldeia de
Sezelhe. No canto superior esquerdo podemos ver um típico relógio de sol
Torre do boi, uma homenagem ao boi
barrosão
Mata do Rio Mau (localizada no
interior do PNPG)
Tão novinho e já com umas impressionantes barbinhas
Um dia destes tenho de colocar as
botas naquele vale (Mata do Rio Mau)
Aldeia de Travassos
O vale do Alto Cávado é assim mesmo, com carvalhos a
rebentar por todos os lados
Espelho de água no rio Cávado
Pormenor de um pequeno trecho do trilho
Campo de centeio
Que bem que sabe caminhar por debaixo das copas das
árvores dos carvalhos J