Enquanto vou
moendo o cérebro a tentar preparar a próxima “aventura” (algures, por entre as fragas e lagoas da Serra da Estrela), acabei por remexer acidentalmente em algumas
pastas e acabei também por reler um “velho” texto que escrevi já lá vão mais de 3
anos. Trata-se de uma inesquecível caminhada outonal, realizada na Serra do
Gerês.
Como alguém
já o disse no passado, recordar é viver. Sendo assim, aqui fica o singelo
relato (na íntegra) de mais alguns «instantâneos
de uma vida ao ar livre».
“Numa típica manhã de Outono, com temperatura amena, e um horizonte
salpicado por algumas nuvens cinzentas, de semblante carregado, lá nos
dirigimos uma vez mais para o Gerês. O objectivo do dia era percorrer um
pequeno trilho, curiosamente intitulado, “Trilho da Preguiça”. Suponho que o
nome talvez tenha a ver com a curta extensão do percurso.
Uma ligeira neblina trespassava o espaço, movendo-se lentamente por entre a
ramagem das árvores. O chão, húmido e fofo, encontrava-se revestido de musgo e
as árvores, uma mistura de espécies mediterrânicas e outras geralmente mais
abundantes nos países do Norte da Europa, levantavam-se de um colchão coberto
por fetos gigantescos. Escondidos por entre a vegetação, cogumelos curiosos
observavam os intrusos. A imensa variedade e diversidade da flora,
especialmente no que diz respeito à botânica, torna o percurso uma espécie de
paraíso para os “Darwinistas” em particular.
Embalados por este mundo de magia, e decididos acrescentar mais alguns
quilómetros ao percurso, dirigimo-nos à Portela de Leonte, pelo estradão de
acesso à Mata Nacional de Albergaria. Acabamos por ficar indecisos entre a
opção de subir ao Pé de Cabril, um dos miradouros mais deslumbrantes da serra
do Gerês, ou ao acolhedor Prado de Mourô, na vertente oposta da montanha. Com
alguma hesitação, lá nos dirigimos ao mítico Pé de Cabril.
À medida que íamos ganhando altitude, um misterioso manto de nevoeiro
acolheu-nos com o seu longo e enternecedor abraço. Presença comum nas cotas
mais elevadas da montanha, com especial intensidade nos dias chuvosos e
cinzentos, o nevoeiro é muitas vezes o responsável por vários acidentes
ocorridos na montanha. A dificuldade na obtenção de pontos de referência devido
à reduzida visibilidade, pode tornar-se numa grande dor de cabeça. Contudo, o
nevoeiro é também capaz de produzir imagens surpreendentes e enigmáticas,
repletas de fantasia e misticismo.
Naturalmente, a progressão era feita de uma forma lenta e hesitante. Já
depois de alguns membros do grupo terem trepado “heroicamente” ao Pé de Cabril,
o nevoeiro, esse, continuava adensar-se cada vez mais, tornando a visibilidade
quase nula. Não conseguíamos ver mais do que uns escassos metros em redor.
Frustrados, tivemos de recuar, acabando por regressar a Leonte, onde retomamos
o trilho inicial.
A falta de bom senso, e a consequente tomada de más decisões, pode,
inclusive, colocar a própria vida em risco. Mais do que inteligência, na
montanha é necessária humildade e respeito. Factores determinantes que
conduziram-nos a um dia muito bem passado, usufruindo dos prazeres que só as
montanhas nos proporcionam, em total segurança.”
Pedro Durães
Fotorreportagem: