Passados 7 meses após
uma memorável caminhada pelos trilhos da Serra do Ourigo, e de pela primeira
vez ter observado e contemplado a imponente Serra do Larouco, finalmente
concretizou-se um desejo desde então secretamente ambicionado: subir ao cume daquela
que é a terceira montanha mais alta de Portugal continental (logo a seguir à Serra da Estrela e Gerês).
Optamos por subir a
montanha pela vertente sul, tendo como ponto de partida a tipicamente barrosã
aldeia de Gralhas, localizada no sopé da montanha. Ainda acabávamos de dar os
primeiros passos e já pressentíamos que não podíamos ter escolhido uma melhor
altura para a subida ao cume do Larouco: O dia apresentava-se soalheiro, o céu
limpo e o ar “lavado” permitiam uma óptima visibilidade, uma brisa suave e
fresca trespassava as encostas da montanha, e a serra, essa, estava
absolutamente divinal! A serra voltava a ganhar vida, despontando de um longo
período de hibernação, e por todo o lado assistíamos a uma autêntica explosão
de cores e cheiros. As outrora gélidas e áridas encostas da montanha
encontravam-se em plena floração, o caminho era como uma espécie de tapete
florido, com o tom rosa da urze a predominar, salpicado aqui e acolá pelo
amarelo e branco da giesta em flor. Mas a visão e o olfacto não eram os únicos
sentidos aos quais era concedido assistir a semelhante espectáculo da natureza,
também a audição foi contemplada pelo constante e por vezes frenético chilrear
das aves, uma pura demostração de vida…e alegria!
Perfil da Serra do Larouco visto a partir
da aldeia barrosã de Gralhas
O caminho transformado num autêntico
tapete florido
As outrora gélidas e áridas encostas
da montanha encontravam-se em plena floração
Pormenor de uma das inúmeras
flores/plantas que encontramos pelo caminho.
Calhaus do Larouco I
Calhaus do Larouco II
Depois de uma
inesperada e árdua subida (decidimos abandonar o caminho, subindo abruptamente
em corta mato, ganhando rapidamente altitude), atingimos um imenso planalto, e
até aqui, já bem acima dos 1400 metros, o jardim do éden continuava, com
pequenas flores a atapetar o solo. O marco geodésico do Larouco estava ali mesmo, a escassos metros, mas as vistas, essas,
prolongavam-se para bem longe dali! Por mais estranho que isso possa parecer, do
topo do Larouco todas as outras montanhas acabam por perder toda a sua
imponência e altivez. Ourigo, Barroso, Cabreira, Gerês, Soajo e Peneda, surpreendentes,
misteriosas, selvagens e bravias quando caminhamos no seu seio materno, mais
parecem como que pequenos e enfadonhos montes dispersos ao longo de um perfil
austero e dominador: o Larouco.
Sobe,
sobe, montanheiro sobe…
Mesmo nas encostas mais expostas aos
elementos a vida despontava
Em baixo é possível ver o camimnho que havíamos deixado para trás... mas que boa trepadela!
Já bem acima dos 1400 metros de
altitude o jardim do éden continuava
Albufeira do Alto Rabagão (Pisões).
No canto direito da imagem encontra-se a vila de Montalegre
Vale do Alto Cávado. Ao fundo, no
canto esquerdo da imagem podemos ver as montanhas da Serra da Cabreira, no
canto direito as montanhas da Serra do Gerês
Aldeia raiana de Sendim, ao fundo a
Albufeira de Sallas. Bem mais longe encontram-se as Serras do Soajo e Peneda
Findo o repasto, era
altura de iniciar a descida até à aldeia de Gralhas, mas não sem antes treparmos
até ao Larouquinho. Embora o marco
geodésico do Larouco indique o
(suposto) ponto de maior altitude da serra, a verdade é que o ponto mais alto
encontra-se precisamente algumas centenas de metros ali mesmo ao lado: o morro
do Larouquinho. Um pouco mais abaixo
acabamos por apanhar o estradão de terra batida que parte da aldeia de
Padornelos, percorrendo-o durante algumas centenas de metros para pouco depois flectirmos
na direcção sul, deixando o estradão para trás. Gralhas ali estava, completamente
estendida naquele imenso e florido planalto. A descida acabou por ser efectuada
num bom ritmo, apesar do mau estado do caminho, e onde ao virar de cada curva
os “calhaus” do Larouco continuavam a surpreender-nos com as suas estranhas e
enigmáticas formas. Ora emergiam abruptamente das profundezas da terra, ora
surgiam em actos de puro exibicionismo.
E lá íamos nós para mais uma
trepadela, desta vez rumo ao verdadeiro cume da Serra do Larouco, o morro do Larouquinho
Calhaus do Larouco III
Calhaus do Larouco IV
Com o calor a começar apertar, fomos
de encontro à frescura dos bosques que envolvem os lameiros
Um belo exemplar de Abrótega
A foto de quem é demasiado fiel para
desistir
E assim terminava mais uma bela jornada
por esses montes fora
Antes de iniciarmos a
viagem de regresso a casa, ainda travamos agradáveis conversas com alguns
locais, e, lá está, fomos petiscar alguma coisa ao “Café 25”. Aquelas bejecas
geladinhas, com aqueles tremoços e amendoins salgados souberam-nos divinamente!
Um bom ensaio para o que viria a desenrolar-se mais à noite… mas sobre isso é
melhor não falar… L
Pedro Durães