Depois da vertiginosa
«aventura» para chegar ao local de início do trilho (aldeia de Porto Cova),
pusemos rapidamente em marcha o plano para o dia. Esta seria a nossa primeira
incursão na vertente norte da serra da Peneda (extremo noroeste do concelho de
Arcos de Valdevez). Durante a viagem de carro havíamos ficado boquiabertos com
a monumentalidade do complexo agro-silvo-pastoril das aldeias em redor. Um
impressionante emaranhado de casas, socalcos, regadios, eiras, espigueiros,
calçadas, cujo enquadramento paisagístico é simplesmente surreal, único em
Portugal. Não é por acaso que esta região da serra da Peneda também é conhecida
por «Nepal Português», em grande
medida devido aos inúmeros socalcos esculpidos ao longo da escarpada encosta da
montanha, mas ao contrário dos Nepaleses, aqui não se cultiva o chã, mas sim
outras culturas, como o milho, a batata, o feijão, entre muitas outras. De pé
posto, lá seguimos os ancestrais carreteiros empedrados pela montanha acima,
ainda hoje usados pelas gentes da terra para acederem às brandas (pequenos
aldeamentos localizados nas zonas mais altas da serra, ricas em pastagem e onde
levam os animais a partir de meados de Abril, onde acabam por permanecer até ao
final do Verão).
O monumental complexo
agro-silvo-pastoril de Porto Cova (em primeiro plano) e Padrão (ao fundo)
Bonito pormenor de um
pequeno trecho do trilho (pena o emplastro do canto inferior direito)
É a Primavera! Finalmente…
Uma «janela» para um
jovem e tumultuoso ribeiro
Em certas partes é
necessário alguma atenção, um eventual descuido dará direito a uma queda de
algumas centenas de metros
Alguém sabe distinguir
que espécie de águia se trata?
Saindo da Branda do
Furado dirigimo-nos de seguida para um miradouro a partir do qual é possível
observar com mais pormenor (no local encontra-se uma placa informativa) os
vestígios da glaciação ocorrida há muitos milhares de anos. O contexto
paisagístico é deslumbrante, e por toda a parte abundam os testemunhos da passagem
de um antigo glaciar, desde o típico vale em forma de U, aos depósitos de enormes
blocos graníticos arrastados pelo glaciar, as chamadas moreias.
Panorâmica do Vale
Glaciar da Serra da Peneda
Vestígios da passagem
de um antigo glaciar (moreias). Bem lá em cima, as fragas da Peneda
Branda da Aveleira,
com o Outeiro Alvo (1314m) a espreitar
lá do alto
Continuando a subir,
acabamos por atingir o ponto mais alto do percurso, a sensivelmente 1100m (Outeiro Gordo). A partir daqui “ganhamos
asas” e deleitamo-nos com uma vista sobre uma imensa área recortada por
montanhas que se sucedem umas atrás das outras, com as terras do Alto Minho em
primeiro plano, e para lá da raia, a Galiza!
Dá vontade de voar,
não dá?
Este não estava para
muita conversa…
Pouco tempo depois
alcançamos um interessante complexo de brandas, formado pela Branda do Outeiro
Gordo, Branda da Costa do Salgueiro e Branda da Lapinheira. Devo destacar o bom
estado de conservação deste complexo, onde é perfeitamente notório o uso e
preservação do solo, quer dos pequenos campos de cultivo adjacentes às
habitações, como também dos terrenos baldios, onde periodicamente é efectuada a
chamada roça de matos, utilizada para evitar a proliferação do mato, como o tojo
e a giesta, mantendo assim o terreno limpo e pronto a servir de pasto para os
animais.
Complexo de brandas
(Outeiro Gordo, Costa do Salgueiro e Lapinheira)
É perfeitamente
notório o uso e preservação do solo através da roça de matos nos terrenos
baldios da serra
Rumo à Branda de
Castribô, onde a passagem por um bonito e denso carvalhal se adivinhava
É sempre um prazer
percorrer os ancestrais caminhos rurais, lajeados e circundados pelos típicos
muros de pedra sobreposta
Cá
está a malta na fantasmagórica Branda de Castribô
E eis que chegamos a Porto Cova, com as cores quentes do fim do dia a embelezarem
(ainda mais) a envolvente ribeirinha do rio Cova
Pedro Durães