6 meses depois, o
regresso à serra da Maçã (pequeno conjunto de montanhas localizado na vertente
sul do concelho de Montalegre). Ao contrário da última incursão, desta vez
iniciamos a abordagem à serra a partir da aldeia das Torrinheiras, um pequeno
aglomerado rural localizado numa zona de transição demográfica entre os
concelhos de Montalegre (Trás-os-Montes) e Cabeceiras de Basto (Minho). Durante
a viagem de carro fomos brindados com uma descarga de chuva durante
praticamente todo o percurso, e, chegados à aldeia, ela continuava…
Timidamente, lá saímos do carro e fomos tirando a tralha para fora. Frio,
vento, chuva… Mau! Saímos da aldeia e nem sequer tivemos a oportunidade de
observar o típico casario serrano, edificado com granito da região, em pequenos
aglomerados habitacionais do tipo concentrado, tal era o nevoeiro cerrado que
não permitia ver mais do que meia dúzia de metros em redor.
Tomando um caminho
rural que liga a aldeia a um pequeno conjunto de lameiros localizado no sopé do
cume das Torrinheiras (daí talvez
advenha o nome da aldeia), entramos naquela que é conhecida localmente como serra
da Maçã (embora nas cartas militares a sua descrição seja serra das
Torrinheiras). Em relação ao cume, esse, nem vê-lo! O nevoeiro continuava a
esconder as montanhas em redor, apesar de a chuva ter cessado, o que contribuiu
para reforçar o optimismo em relação ao estado do tempo para o resto do dia. A
pouco e pouco, íamos tendo vistas parciais da paisagem serrana, cuja vegetação
é composta essencialmente por matos rasteiros (urze, carqueja…), sendo
perfeitamente notório o uso do solo por parte dos pastores locais, dada a
abundância de pasto natural para o gado (maioritariamente bovino e algum
caprino). Foi também por esta altura que deparamo-nos com um cenário macabro.
Uma grande carcaça de um garrano, estendida no chão, apenas com o esqueleto
relativamente preservado. Aliás, ao longo do dia deparamo-nos com pelo menos
mais duas carcaças, o que leva a crer que supostamente a alcateia da Cabreira tem andado
bastante activa nos últimos tempos, apesar de odiada e perseguida pelos
pastores locais, tal como acontece com todas as outras alcateias.
As
casas da aldeia? Nem vê-las…
… Tal
como o cume das Torrinheiras
É mesmo
verdade. Eles (ainda) andam por aí...
Pormenor de um pequeno
trecho do trilho
Passagem
por um lindíssimo vidoal de montanha
Continuando por um
trilho de pé posto, dirigimo-nos à capela da Senhora dos Aflitos, localizada no
cume de uma pequena colina. O local permite obter vistas deslumbrantes,
abarcando de uma só assentada as montanhas da serra da Cabreira, Gerês,
Larouco, Barroso… Depois de pararmos um pouco para nos deleitarmos com as
vistas, iniciamos a descida até ao vale da ribeira de Lamas do Miro.
Ao fundo é possível avistar
a vila de Salto (Montalegre). Um pouco mais acima encontra-se a serra do
Barroso, ainda envolta em neblina
Descida
para o vale da ribeira de Lamas do Miro
Vale
da ribeira de Lamas do Miro
O próximo objectivo consistia
em encontrar o mítico «Índio da
Cabreira». Trata-se de uma escultura cravada na rocha, onde é visível a
face de um índio. Quem terá esculpido essa face? Algum pastor? Um montanheiro? Ou
algum hippie da “Família Rainbow”? O
local onde se encontra a escultura coincide com o local de concentração de um
acampamento que decorre anualmente naquela zona da Cabreira, e que junta alguns
milhares de hippies, vindos dos 4 cantos do mundo.
Cá está ele, o «Índio da Cabreira»
Se não prestarmos um
pouco de atenção, a escultura passa despercebida
Afinal havia uma outra
escultura, esta visivelmente mais recente
Depois de encontrada e
fotografada a escultura (pelos vistos havia outra), era altura de
encontrar um local para almoçar. Deixando o estradão para trás, entramos numa densa
floresta, aproveitando a ocasião para tirar muitas fotografias, tal era a
diversidade dos diferentes tons de cores que íamos encontrando pelo caminho.
Decidimos almoçar numa clareira, o que permitiu que de vez em quando os raios
de sol entrassem, aquecendo o local, e nós também!
Um facho de luz ilumina
um pequeno lameiro lá ao fundo
Há magia nos bosques
da Cabreira!
Bosque com diferentes tons de
cores
Havia chegado a altura
de iniciarmos o regresso à aldeia das Torrinheiras, mas não sem antes darmos um
salto ao curral da serra da Maçã, onde alguns bovinos pastavam, juntamente com
uma família de garranos. Estranhamente, os garranos não se mostraram
minimamente incomodados com a nossa presença, inclusive chegamos a passar junto
deles, a escassos 3,4 metros, sem que os mesmos tirassem os olhos do solo! Já
se fossemos lobos…
Chegados à aldeia, ainda
decidimos caminhar um pouco pelas ruelas graníticas, observando e admirando alguns
exemplares da arquitectura rural transmontana, desde as tradicionais alminhas, aos
velhos cruzeiros revestidos por líquenes, sem faltar, é claro, os lameiros,
delimitados pelos tradicionais muros de pedra sobreposta.
Passagem pelo curral
da serra da Maçã, onde já era possível observar o cume das Torrinheiras (canto superior direito)
Uma última vista de
olhos para o… vocês sabem…
Aldeia das
Torrinheiras com os seus típicos lameiros
Na viagem de regresso
ainda paramos em Cabeceiras de Basto para visitar o majestoso mosteiro de S.
Miguel de Refojos, paragem obrigatória para quem passa por estas bandas.
E não nos esquecemos de visitar também o emblemático "Basto", um antiquíssimo guerreiro esculpido em granito (ao longo dos tempos foram efectuadas algumas alterações estéticas) e ao qual supostamente tem origem o nome dos concelhos das denominadas Terras de Basto (Cabeceiras de Basto, Mondim de Basto e Celorico de Basto). Aconselho vivamente!
Pedro Durães