Ano novo, vida velha!
Pois é, chegamos finalmente ao (des) esperado ano de 2013, ano em que os meios
de comunicação social desde logo colocaram o rótulo de “ano horribilis” para todos (ou quase todos) os portugueses. Decididos
a libertar-nos, mesmo que por algumas horas, da teia que cada vez mais vai
apertando e atormentando o mais comum cidadão, dirigimo-nos para o Alto Minho,
mais concretamente para a serra D’Arga, onde, curiosamente, acabamos por
saborear um pouco do… paraíso!
As condições climatéricas não podiam ser melhores. Sol por todos os poros, um céu coberto por um azul celestial, e um vento de tal maneira mansinho, que nem chegávamos a dar por ele. Saídos da aldeia de Cerquido, «empoleirada» a sensivelmente meia encosta da serra (vertente voltada para Ponte de Lima), tomamos desde logo um caminho empedrado que nos iria conduzir, serra acima, até à ermida da Senhora do Minho, localizada no ponto mais alto da serra D’Arga, a sensivelmente 750 metros de altitude.
O caminho é uma verdadeira obra-prima de engenharia do homem serrano. A calçada vai serpenteando a encosta da montanha, aos “Ss”, e por incrível que pareça, sem que para isso seja necessário despender um grande esforço físico, num ápice vencemos o acentuado declive e quando vamos a dar conta, já estamos no topo da montanha! Impressionante.
Uma pequena cascata nas imediações da aldeia de
Cerquido
A impressionante calçada que liga a
aldeia de Cerquido à Senhora do Minho
E o cume da Senhora do Minho cada vez mais perto...
Chegados ao topo, a
paisagem muda radicalmente. Os declives acentuados vão dando lugar a um enorme
planalto e a secura austera das encostas da montanha acaba por ceder aos pés da
frescura procriadora, de onde se estende um revitalizante relvado a perder de
vista. Uma Chã é caracterizada pelo
seu relevo suave e por serem locais bastante húmidos e onde se concentram
vários cursos de água, características fundamentais que fazem com que o pasto
seja abundante durante praticamente todo o ano, e onde é normal avistar vários
animais que aí se concentram durante o dia.
Passagem
por uma Chã, onde tivemos de interromper por breves momentos o almoço de alguns residentes locais
Infelizmente, a zona
envolvente da Senhora do Minho
encontra-se bastante humanizada. Estradões, turbinas eólicas, postes de
transporte de energia, e, claro, o profano santuário «em honra» da Senhora do Minho, que inclusive chegou a
ser comparado com uma estação de ski… Diante daquele edifício, de proporções
gigantescas e completamente desenquadrado do contexto paisagístico no qual se
encontra inserido, senti a alma encher-se de uma profunda sensação de falsidade
perante toda aquela religiosidade postiça. Enquanto deambulava pelos arredores
do edifício, acabei por fortuitamente encontrar a velhinha ermida. Toscamente
cravada numa saliência rochosa, a pequena e rudimentar ermida mantém, ela sim, uma
imagem de verdadeira autenticidade!
Apesar de tudo, o
local é um daqueles miradouros naturais que por mais palavras que despendesse,
poucas seriam aquelas que poderiam sequer aproximar o leitor do sentimento de
felicidade que presenciamos lá em cima. As próximas fotografias são a prova
viva de que uma imagem, vale por mil palavras! Era também o local ideal para um
descontraído repasto.
Estátua da Senhora do Minho, presente no interior da pequena ermida
«Se não escalas a montanha, jamais
poderás desfrutar da paisagem.» Pablo
Neruda
Cá está a foto com os primeiros «cromos» do ano
(Foto obtida pelo camarada António)
Era altura de
voltarmos ao trilho, do qual tínhamos perdido o rasto há já algum tempo. Optamos
por seguir um antigo caminho florestal, no qual depositamos a esperança de que,
mais cedo ou mais tarde, acabávamos por encontrar o trilho certo. Chegava a ser
engraçado ver o pessoal completamente distraído, apenas dispondo alguma da sua atenção
a uma amena cavaqueira que entretanto ia-se desenrolando, e enquanto uns
tiravam fotografias, os restantes colocavam as mãos nos bolsos, num puro
despropósito. Continuando pelo referido caminho, e enquanto acabávamos de
contornar uns rochedos, tivemos mais um momento verdadeiramente surpreendente,
diria até, inesquecível. Sem estarmos de todo à espera, acabamos por ficar completamente
rendidos perante a grandeza do cenário. Uma enorme Chã a perder de vista! E, dispersos na imensidão do terreno, vários
grupos de garranos pastavam livremente. Não fosse a merda das turbinas eólicas,
era capaz de admitir que aquele tinha sido um dos mais belos momentos, em
termos de contexto paisagístico, que até então tinha presenciado.
E começava por esta altura a
tentativa de encontrar o «trilho certo»
Algumas características da geologia
do terreno
A impressionante Chã Grande
A tarde ia-se prolongando, e a malta
continuava sem encontrar o trilho, pelo menos aquele que tínhamos inicialmente
proposto percorrer. Deixamos a Chã para
trás e trepamos uma pequena colina,
acabando por ir ao encontro do estradão de acesso ao parque eólico. Durante a
subida avistamos algumas mariolas, de proporções consideráveis, e tendo em
conta o seu estado de conservação, diria que já não são utilizadas pelos
pastores nos dias de hoje. No entanto, cada uma delas proporciona um autêntico
posto de vigia sobre a Chã, estando a
sua localização eventualmente relacionada com esse factor.
Uma de várias mariolas que
encontramos nas imediações da Chã Grande
Já na descida da serra, com as cores quentes do fim do dia a começarem
a notar-se no horizonte
E não é que acabamos por encontrar o
trilho! Pelo menos as marcas de um… Era a altura de efectuarmos a descida da
montanha. Através de mais uma calçada (embora desta vez a descer), acabamos por
perder altitude rapidamente, e num ápice já estávamos a entrar por um aldeamento
adentro. Olhava o mapa e já não fazia a mínima ideia se estaríamos na aldeia de
Agra de Cima, de Baixo, do Meio… E por incrível que pareça, havia marcações de
PR’s por todo o lado! Deixávamos de seguir as marcações, e um pouco mais á
frente… novas marcas! E assim foi durante algum tempo. O problema é que o dia
já estava perto do fim, e as cores quentes do fim do dia haviam já perdido todo
o seu fulgor, cedendo perante uma negrura que estava prestes a envolver-nos.
Embora tivéssemos a noção do local aonde nos encontrávamos (imediações do Fojo
do Lobo), tivemos mesmo de apanhar «boleia» da EM552, evitando assim correr riscos
desnecessários, já que não tínhamos frontais para poder continuar a caminhar, pelo menos com maior segurança.
Passagem por um belo caminho rural
Um fantástico conjunto de moinhos nas
redondezas da aldeia de Agra de Cima? De Baixo? Do Meio?
Imagem obtida enquanto percorríamos a
EM552. No canto esquerdo da fotografia é possível observar a iluminação no
profano santuário da Senhora do Minho
E foi assim, desta forma um pouco inesperada, que
disfrutamos de mais um belo dia na montanha. Fica a promessa de voltar um dia
mais tarde à surpreendente serra D’Arga, quem sabe se ainda no presente ano de
2013…
Pedro Durães

