Fazendo
minhas as palavras proferidas há muitos anos atrás pelo «nosso» Vítor Espadinha,
recordar é viver! Apesar de não saber muito bem as razões da decisão de publicar
este post, vivido, fotografado, e posteriormente escrito, a verdade é que não
resisti a um impulso surgido não sei bem de onde… Fica o singelo relato de mais
uma «aventura», vivida algures nas montanhas geresianas.
Gerês, 6 de Junho de 2010
Entre Gigantes
A aldeia
barrosã de Pitões das Júnias, situada a 1132 metros de altitude, numa das zonas
mais bonitas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, é provavelmente o ponto de
partida para alguns dos melhores trilhos de montanha no norte de Portugal.
Tínhamos
planeado passar o fim-de-semana na aldeia, e aproveitar a oportunidade para
explorar um pouco mais a área envolvente.
Percorrendo
um caminho empedrado, que contorna o casario, passando de seguida pelos campos
agrícolas, descemos até um belíssimo vale, recortado pelo ribeiro do Beredo e revestido por um pujante carvalhal.
Para nosso espanto, enquanto descíamos em direcção ao vale, avistamos uma vara
de javalis! Como é natural, no momento em que se aperceberam da nossa presença,
desataram a correr que nem doidos, embrenhando-se rapidamente e ruidosamente no
denso bosque.
Por esta altura o
nevoeiro começava finalmente a levantar… o dia prometia!
Pormenor de um
pequeno trecho do trilho, já na descida para o vale do ribeiro do Beredo
Já no vale,
decidimos acompanhar a subida do pequeno ribeiro, percorrendo lentamente as
suas margens musgosas, protegidos do sol pelas copas das árvores, desfrutando
do momento. Ainda tivemos o prazer de observar algumas espécies endémicas da serra
do Gerês, que nos iam surgindo no caminho. Foi o caso do Lirio-do-Gerês. De
corpo esbelto, postura elegante, e possuidor de um lilás sedutor, é sem dúvida
uma planta de uma beleza encantadora.
Haverá alguém que não
fica rendido ao encanto do Lírio-do-Gerês?
Fim da subida do vale
do ribeiro do Beredo, a partir daqui
teríamos a montanha com toda a sua força bruta
Assim que
chegamos a um pequeno colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas e que
une dois vales, servindo de passagem), podemos finalmente contemplar o vale da
ribeira dos Fornos e os imponentes Cornos de Fonte Fria. Localizados numa
linha de cumeada, na raia luso-espanhola, os Cornos de Fonte Fria são um caótico amontoado de grandes blocos de
granito, com formas invulgares e misteriosas. Um pouco mais acima do local
onde nos encontrávamos teríamos apenas muita pedra solta e rocha,
invariavelmente acompanhada por extensos mantos de urze e carqueja.
Fraga da Brazalite (canto superior esquerdo) e
pico da Carvalhosa (canto superior
direito)
Ainda equacionamos a
subida ao pico de Fonte Fria, mas um
repentino nevoeiro fez-nos mudar de ideias
Decidimos continuar, utilizando um carreiro que contorna a fraga da Brazalite. Durante o trajecto o nevoeiro
começou a dissipar-se, e o pico da Carvalhosa
ali tão perto…
Determinados,
decidimos subir a um dos gigantes de granito (pico da Carvalhosa). Sem dúvida alguma, a árdua (e vertiginosa) subida valeu
mesmo a pena. Avistamos uma imensa área recortada por montanhas que se sucedem
umas atrás das outras, um reino maravilhosamente… selvagem! Enquanto ia
contemplando o cenário, os meus ouvidos captaram um som estranho e arrepiante.
Olhei para os meus amigos, como que a perguntar se eles teriam ouvido o mesmo
que eu, até ao momento em que um deles disse: «Vocês ouviram? Era um uivo de um
lobo.» Ficamos ainda mais incrédulos quando alguns segundos depois um novo e
intenso uivo fez-se ouvir novamente… nem queríamos acreditar!
Vista a partir do
cume, onde se pode avistar um reino maravilhosamente… selvagem!
Pitões das Júnias ali
tão perto… e ao mesmo tempo tão longe
Ao fundo já é
possível avistar terras galegas, e a albufeira de Salas em particular
Pausadamente,
ainda a recuperar o fôlego da experiencia que tínhamos testemunhado, retomamos
o trilho em direcção à aldeia, aproveitando as cores quentes do fim do dia para
muita fotografia.
Vale da ribeira das Aveleiras ao fim de mais um dia de
pura montanha
Pois é, já fui muito
feliz… bem lá em cima!
(Foto de Mário Marinho)
(Foto de Mário Marinho)
Pedro Durães