Gerês, 31 de Outubro de 2009
Já por
diversas ocasiões me questionaram do porquê deste deambular, aparentemente
inútil e inconsequente, por esses montes fora.
A resposta
geralmente varia, consoante a pessoa em questão. A todas aquelas para quem a
montanha não é mais do que um local perigoso, onde se sofrem acidentes, ou
simplesmente faz muito frio, sarcasticamente respondo com um simples e seco:
«Coloca lá as botas, e logo saberás…». Quando essa pessoa é alguém por quem
tenho algum tipo de afectividade, logo uma maior predisposição para tentar explicar
o que para muitos é inexplicável, vem-me á memória uma pequena frase, lida algures
no passado e para sempre guardada no «baú das memórias literárias». Falo de um
pequeno excerto, retirado da obra “Vindima” (1945), da autoria do poeta Miguel
Torga. A certa altura, uma das personagens do romance é precisamente
questionada sobre os motivos desse deambular contingente, e a personagem,
calmamente, relembra que «…o encanto todo
está precisamente nessa vadiagem gratuita, na palpitante experiência de romper
caminhos ignorados e que ninguém mais percorrerá, no delicioso imprevisto que
nos espera a cada momento. É, afinal, a fascinação do regresso à primitiva
pureza, o reencontro com a vida ainda não manchada pelo verdete da náusea
contemporânea.»
Talvez
seja essa a verdadeira e única razão da paixão que sinto pela montanha… ou
simplesmente talvez nem queira saber dos motivos… Talvez o caro leitor compreenda
agora o porquê e a razão de ser deste blogue. Caso não compreenda, resta-me apenas
dizer: «Coloca lá as botas, e logo saberás…»
Pedro Durães