Vizinha da
robusta e entroncada serra do Gerês, a serra da Cabreira surpreende-me pela sua
feminilidade, visível (aos olhos de quem realmente quer ver) nas linhas delicadas
e onduladas da montanha, debruada por bonitos vales que se abrem suavemente ao
longo das encostas da montanha, e planaltos coloridos e perfumados, que mais
parecem jardins do éden.
A essa
feminilidade não é alheio o próprio nome da serra. Segundo a lenda, diz-se que
certo dia uma moça vinda dos lados de Espanha, desenvolta, jovem e bonita,
chegou à fronteira, que praticamente não existia, e deixou-se ficar com o seu
rebanho de cabras, na bela paisagem que a encantava. Numa manhã de sol, um
cavaleiro muito elegante, que andava à caça com outros caçadores pelas
redondezas, ficou maravilhado diante da jovem pastora. Aproximando-se,
desmontou do cavalo e cumprimentou-a docemente. Com um sorriso de promessas, o
cavaleiro trocou juras de amor, prometendo ficar para toda a eternidade naquele
local, apenas para a adorar. E assim começou mais uma história de amor. Apaixonados
e felizes, como se só eles existissem no mundo, por ali ficaram, recolhidos
naquele recanto paradisíaco da serra.
Um dia, o
cavaleiro disse à jovem pastora que teria de deslocar-se à sua terra natal, mas
que voltaria. Triste, suspirando, ela apenas perguntou pelo seu nome, já que
nem sequer sabia como ele se chamava. Sorridente e dominador, o cavaleiro disse
que era o conde de uma vila próxima, mas que não se preocupasse, ele viria em
breve, e a levaria para o seu palácio.
E a pastora
esperou… esperou… até ficar quase morta de fome, de cansaço e de frio (e de
desilusão também). Num desabafo de alma, disse que gostaria de ser ave e voar,
para ir ao encontro do amado. E chorou. Chorou tanto que o caudal das suas lágrimas
transformou-se num rio, e esse rio foi banhar a terra daquele que a abandonou.
Desde esse momento, o povo decidiu homenagear a jovem pastora, dando o seu nome
à serra (Cabreira), e o nome de Ave ao rio que vai desaguar à terra do amado
(Vila do Conde).
Também eu me
apaixonei nas montanhas da Cabreira! Não por uma linda pastora, mas por uma
floresta encantadora. De um inegável e riquíssimo valor ecológico, ao qual se
junta uma estonteante beleza estética, a Costa
dos Castanheiros é um pequeno (e raro) santuário natural. O delicado e
harmonioso equilíbrio existente entre diferentes tipos de folhosas (castanheiros,
carvalhos, bétulas…) e resinosas (pinheiros, cedros…), aliado à presença constante
da ribeira da Lage e do ribeiro Escuro, transformam este recanto da Cabreira
num autêntico refúgio, não só para os amantes da natureza, mas principalmente para
diversas espécies animais, algumas das quais fortemente ameaçadas e em perigo
de extinção. De entre as várias espécies destaco os mamíferos como o lobo (a
floresta das Costa dos Castanheiros é
indicada como um dos possíveis locais de reprodução da alcateia da Cabreira), o
abundante javali, o recentemente introduzido corço, e junto às linhas de água
podemos encontrar (se tivermos sorte) a lontra, que mantem uma
vigilância constante ao longo das margens dos ribeiros em busca da esquiva truta.
Dito isto,
nada mais tenho para vos dizer, e, como de costume, deixo-vos as habituais
fotos, que tentam (de forma inglória) mostrar alguns dos momentos «simbólicos» de
mais um belo dia passado na montanha, rodeado de magia e encanto, ou não
estivesse eu a caminhar pelas montanhas onde outrora uma linda (e trágica)
história de amor se desenrolou, e que o tempo e os homens, teimosamente, não permitiram
que se apagasse da memória a Lenda da
Serra da Cabreira.
Pedro Durães
Fotorreportagem:
O dia amanheceu feliz.
Queria subir aos
montes,
Queria beber nas
fontes,
Queria perder-me nos
largos horizontes…
E a vida assim o quis!
Nota: Todas as fotos (excepção da fotografia
com a sinalética «Serra da Maçã») foram tiradas ao longo de um antigo caminho
florestal e de um fantástico trilho de pé posto que embrenha-se no interior
«secreto» da floresta da Costa dos
Castanheiros. O percurso homologado é efectuado ao longo do monótono estradão
florestal que contorna a montanha. Para quem não se encontrar familiarizado com
a área em questão, é aconselhável seguirem o referido estradão… SORRY! ;)