13 de Outubro de 2012
Introdução:
De
novo em Montalegre, e de novo a descoberta de novas montanhas e novos
horizontes. Há já algum tempo que tinha a intenção de calcorrear o"PR2 Trilho do Ourigo". Aproveitando uma «janela de bom tempo», depois de uma semana de
chuva, lá nos dirigimos finalmente para a barrosã
serra do Ourigo. Tal como acontece com praticamente todos os percursos de
montanha que se encontram fora dos locais turísticos,
chega a ser difícil obtermos informação suficiente em relação ao percurso
escolhido. Entre outros factores, penso que a pouca utilização, e consequente divulgação,
deve-se, em certa medida, a uma notória falta de interesse por parte dos
montanheiros (pessoas que normalmente utilizam a montanha para a realização de
actividades desportivas e de lazer) pelos percursos pedestres que se encontram
fora da área abrangida pelo PNPG. Pelo que me tenho apercebido ao longo dos
últimos anos, tem-se criado uma espécie de «culto» em torno do PNPG, onde para
muita gente a palavra montanha (em especial no norte do país) é sinónimo de
Gerês, e pouco mais. A verdade, porém, é que não podiam estar mais erradas! Há
todo um reino maravilhoso para descobrir, que vai muito para além das penedias
da Peneda-Gerês. E «o que é preciso, para
os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o
coração, depois, não hesite.» As montanhas da serra do Ourigo são um desses
locais!
Descrição:
Decidimos
começar o percurso na recôndita aldeia de Castanheira da Chã, e utilizando um
antigo caminho rural, fomos caminhando por entre diferentes campos de cultivo e
lameiros. Paulatinamente, o caminho vai subindo ao longo da encosta este da
serra do Ourigo, de onde é possível obter vistas fantásticas sobre o lençol de
água da Albufeira do Alto Rabagão (a maior albufeira do país, antes da
construção da barragem do Alqueva) e sobre a serra do Barroso.
Chegados
ao Ourigo, local onde se encontra
mais uma abandonada e vandalizada casa do guarda-florestal (aonde é que eu já
vi isto…), circundada por um exótico bosque (uma amálgama de diferentes tipos
de pinheiros e cedros), alcançamos, um pouco mais á frente, o ponto mais alto
do percurso. Transposta a linha de cumeada, onde se localiza mais uma aberração
da natureza (leia-se parque eólico), as vistas ganham novo fôlego, e os picos
do Gerês, em particular os Cornos de
Fonte Fria, surgem com todo o seu esplendor e força bruta, apesar da enorme
distância que nos separa. Bem mais perto, encontra-se o «Deus Larouco», que irá
passar a dominar a paisagem durante praticamente todo o dia, bem lá em cima, na
altivez dos seus 1525m.
Serra do Larouco e as aldeias de
Mourilhe (á esquerda) e Sabuzedo (á direita)
Montalegre.
Uma ideia... da natureza!
Após
uma rápida passagem pela aldeia de Cambezes do Rio, onde a vida comunitária
encontra-se bem presente nos dias de hoje, exemplo disso a utilização do forno
comunitário e dos moinhos comuns, continuamos a marcha por um caminho que, a
pouco e pouco, vai sendo engolido por uma mata jovem, qua a cada passo se vai
tornando cada vez mais densa e «envelhecida». A Mata do Avelar (um deslumbrante
carvalhal autóctone) é um daqueles locais que nos cativam, não só pela extrema beleza
natural, mas também por uma estranha sensação de conforto e candura, que faz
com que não queiramos sair daquele mundo mágico.
Entrada
na Mata do Avelar
Um
carvalhal deslumbrante!
Um raro (e ao mesmo tempo abundante) Azevinho
Infelizmente,
tínhamos que continuar a caminhar. O próximo destino seria o Fojo do Lobo do Avelar. Os fojos surgiram da
necessidade de caçar os lobos, que punham em causa a segurança dos rebanhos. Os
muros convergentes, em forma de "V", encaminhavam os lobos (através
de batidas organizadas), em direcção a um poço, onde os lobos depois de caír,
ficavam presos. Aproveitamos o cenário do local para almoçar.
Enquanto comia o meu repasto, não parava de pensar na persistência dos homens
do passado, a transportar a pedra serra acima, construir esta verdadeira
muralha, e, depois, andarem que nem «loucos» a correr encosta acima, encosta
abaixo, a tentar empurrar os lobos para o buraco fatal. E ainda nos queixamos
do tempo em que vivemos…
Estradão
florestal de acesso ao Fojo do Lobo do Avelar
Fojo do Lobo do Avelar
Descida
do Fojo do Lobo do Avelar em direcção à aldeia de Torgueda
A
partir do fojo do lobo o caminho é quase sempre a descer por extensas zonas de mato,
dominados por giestas, urzes e carquejas. Devo realçar ainda a passagem pela aldeia
de Torgueda e o bonito caminho rural que liga a referida aldeia a Castanheira
de Chã, através de um bucólico caminho que ladeia os campos e os lameiros, e
apesar de estarmos em pleno Outono, eles continuam incrivelmente floridos e
perfumados!
Aqui
estão os «cromos» de mais um dia (muito) bem passado... na montanha!
Pedro Durães