Introdução
Localizada num extenso vale, numa zona
de transição geográfica entre a serra da Cabreira e a serra do Barroso, a
pacata vila de Salto, em Montalegre, é um dos exemplos da curiosa simbiose entre
o homem e a natureza. Neste pitoresco recanto trasmontano a paisagem foi
moldada de uma forma ordeira e harmoniosa.
Já havia anteriormente percorrido o Trilho de D. Nuno que desenvolve-se
precisamente a partir da vila de Salto, indo ao encontro de várias aldeias
vizinhas, através de belíssimos caminhos rurais, onde podemos disfrutar da
calmaria típica das aldeias do interior do país, onde é notório a luta inglória
travada pelos «resistentes» locais contra uma desertificação que vem aumentando
de ano para ano. Mas enganam-se aqueles que pensam puder vergar esta gente,
pois tal como se diz por terras do barroso: «Ser barrosão não é uma opcção, mas
antes uma condição!»
Pretendia também explorar um pouco mais
a vertente oeste do percurso homologado, precisamente aquela em que o trilho se
dirige para a capela da Sra. dos Aflitos (miradouro natural sobre a serra da
Cabreira), e a partir desse ponto deixar o percurso homologado para trás e penetrar
na «desconhecida» serra da Maçã.
Descrição de percurso
Assim que entramos no bonito parque de
lazer do Torrão da Veiga, dirigimo-nos para a ponte sobre a ribeira do Torrão.
Transposta a ponte, viramos á direita, e um pouco mais á frente acabamos por
entrar num caminho florestal, percorrendo um denso e refrescante bosque, onde o
abundante pinheiro-silvestre convive pacificamente com frondosas bétulas e viçosos
carvalhos.
Passagem
por um belo pinhal
Transposto o bosque, chegamos á recôndita
aldeia de Paredes. Trata-se de uma das mais típicas e bem preservadas aldeias
da Cabreira. Após uma rápida visita à aldeia, onde ainda trocamos algumas
palavras com um jovem pastor, dirigimo-nos para o interior da serra. Utilizando
um antigo caminho rural, começamos a ganhar altitude progressivamente, subindo
ao longo das verdejantes encostas da Cabreira, que por esta altura eram banhadas
por um sol de oiro, e o céu, esse, encontrava-se coberto por uma manta de um
azul celestial.
Muro de
pedra sobreposta, com as encostas da serra da Maçã como pano de fundo
«Congestionamento»
á saída da aldeia de Paredes
Assim que atingimos a capela da Sra. dos
Aflitos podemos finalmente descansar um pouco e aproveitar para contemplar uma
paisagem fantástica. Tínhamos aos nossos pés a serra da Maçã, e lá do alto, não
muito distante, o Talefe (o ponto
mais alto da serra da Cabreira, com cerca de 1200m). À medida que virávamos as
nossas cabeças o panorama não cessava de nos surpreender. «Epá, olha ali o
Gerês!», exclamou um. Pouco tempo depois: «Olha a serra do Barroso! Os Pisões
ficam para aqueles lados», dizia outro. «Vamos mas é andar, que já estou a
ficar com fome!», arrematou alguém.
Cruzeiro
da capela Sra. Dos Aflitos
Como o plano era de almoçar no curral
da serra da Maçã, tínhamos 2 opções a considerar. A primeira, mais fácil,
consistia em apanhar o estradão florestal, junto à ponte da ribeira de Lamas do
Miro, e seguir o estradão em direcção ao curral. A segunda, mais difícil,
baseava-se na travessia do «mar de fetos» que se estendia á nossa frente, ao
longo de pequenos e acessíveis vales. Claro está que o bom senso prevaleceu, e
optamos por «nadar» no dito mar. Granda Mário, fazer tudo isto de calções, por
entre a carqueja e o tojo é de homem!
Onde está
Wally? Parte I
Chegados ao curral paramos para
almoçar, tendo como companhia o gado da casa (barrosão, lá está) e os
garranos, que aparentemente abundam por estes lados. Evidentemente, almoçamos com
relativa distância em relação aos nossos amigos. Não é que não nos importássemos
de partilhar a refeição, mas as boas maneiras á mesa não são propriamente as
mais civilizadas… se é que me faço entender ;)
Curral da serra da Maçã, com o Alto das Torrinheiras no canto direito da imagem
Findo o manjar, rumamos em direcção á
aldeia das Torrinheiras por um caminho que liga a referida aldeia ao curral.
Aliás, o curral da serra da Maçã é utilizado por pastores de várias aldeias vizinhas
e são vários os caminhos de acesso, é tudo uma questão de escolha do ponto de
partida. Um pouco mais á frente encontramos uns marcos, muito antigos por
sinal. Fica a dúvida sobre a sua origem. Serão de origem Celta? Romana? Medieval?
Pelo que consegui apurar, actualmente servem como delimitação de 2 regiões,
Minho e Trás-os-Montes e Cabeceiras de Basto e Montalegre, respectivamente. Para
terminar, só um pequeno apontamento. Os tipos que colocaram a sinalética de
«ZONA DE CAÇA ASSOCIATIVA» não podiam colocar o raio da placa noutro lugar… Vê-se
cada coisa por esses montes fora…
Rocha a
emergir sobre um «mar de fetos»
A placa fica mesmo bem, não fica?
Nos ditos marcos, flectimos para a
esquerda, não seguindo ao encontro da aldeia das Torrinheiras. A pouco e pouco
a serra da Maçã ia ficando para trás e o planalto barrosão estendia-se agora
diante de nós, embora ainda distante. Aproveitamos o panorama para tirar a foto
da praxe e debater o rumo a seguir. Uma vez mais o bom senso impôs-se e decidimos
atalhar por novo bosque, bastante denso por sinal, por um caminho perfeitamente visível
e bem delineado. Pena foi o facto de o raio do caminho simplesmente não existir…
mas a coisa até se compôs e conseguimos apanhar mais um caminho florestal, que acabou
por nos conduzir sem mais sobressaltos á aldeia de Corva, onde paramos para
«meter gasolina», antes da estirada final em direcção á vila de Salto.
A Becas a
c**** para a foto
O caminho «perfeitamente visível e bem delineado» pelo bosque
Anta no
parque de lazer do Torrão da Veiga
Esta fotorreportagem é dedicada á nossa
amiga Teresa, que por motivos de saúde não pôde participar em mais uma marcha
por estes montes fora. Ficam os desejos das melhoras e um beijinho do tamanho
do mundo deste pessoal que continua andar 100Destino…
Pedro Durães