Dia I
Fafião-Porto da
Laje-Sombrosas-Fichinhas-Mourisca-Rocalva
Muito haveria a dizer acerca desta pequena aventura
pelas montanhas do Gerês, no entanto, vou tentar ser breve. Logo pela manhã, à
saída da aldeia de Fafião, um «mar» de nuvens, de semblante carregado, pairavam
sobre as nossas cabeças. Percorremos os primeiros 3 quilómetros do trilho
através de um monótono estradão florestal, subindo pausadamente, até
desembocarmos num pequeno planalto, onde optamos por seguir o rasto de umas
mariolas, penetrando desta forma na encosta este do vale do rio do Porto da Laje, em vez de continuarmos
pelo referido estradão.
Estradão florestal que liga a aldeia de Fafião ao Porto da Laje
Vale
do rio do Porto da Laje, com as Sombrosas à vista
A partir deste ponto
as Sombrosas passam a dominar a
paisagem. Fizemos uma rápida visita ao abrigo do Porto da Laje, o primeiro de muitos que iriamos encontrar durante
os próximos dias. O Porto da Laje, basicamente,
não é mais que um simples muro de betão colocado no meio da serra, mas a
envolvente provocada pela retenção das águas a montante forma um bonito «lago»,
onde a tonalidade azul púrpura da água é fenomenal.
Paramos para almoçar
no abrigo da Touça, estrategicamente
localizado na confluência do vale do rio Laço,
com o vale das Sombrosas. Findo o
almoço e respectiva pausa para uma curta siesta,
colocamos novamente as mochilas às costas, e assim que começamos a caminhar,
uns ligeiros chuviscos começaram de imediato a cair. As vistas sobre o vale do
rio da Touça eram de facto lindíssimas. «Cá em baixo» tínhamos as suas lagoas
naturais, e «lá em cima» a imponente parede das Sombrosas… fantástico!
A
majestosa parede das Sombrosas
Os chuviscos iam
lentamente passando a aguaceiros, e a roupa começava finalmente a ficar cada
vez mais molhada e pesada… Mau! E ainda tínhamos pela frente a subida do vale
das Fichinhas e da Mourisca! Vamos lá deixarmo-nos de
lamúrias e toca a subir… a subir… a subir…
Vale
das Fichinhas
Ainda paramos para
inspecionar o abrigo das Fichinhas e
constactar que o mesmo se encontrava devidamente limpo e seco. Como a ideia era
pernoitar no curral da Rocalva,
decidimos continuar a subida. Assim que terminamos a penosa subida da Mourisca, sentimos que íamos na direcção
errada. Paramos. Retiramos o mapa e a bússola e debatemos a situação. De facto,
tínhamos efectuado um pequeno desvio, e poucas dezenas de metros mais á frente
apanhamos novamente o rasto de mariolas. A confirmação de que estávamos no
trilho certo veio logo depois com o avistamento do «farol» da Rocalva. Que alívio! A ideia de uma
noite ao relento começava a pairar no ar…
No trilho certo, com a fraga da Rocalva a servir de «farol»
Com o ambiente
finalmente desanuviado, as últimas centenas de metros foram como que um
descontraído passeio pelo «campo», com paragens para muita fotografia e
sorrisos rasgados. Mas o melhor ainda estava para vir... Assim que alcançamos o
curral da Rocalva e entramos para o
abrigo, a surpresa foi total. O abrigo encontrava-se não só limpo e seco, como
ainda tinha lenha empilhada! Palavras para quê… Toca acender a fogueira,
retirar a roupa molhada, preparar o jantar, tomar café ou chá, conforme as
preferências de cada um, deitar no interior de um saco-cama quentinho e
adormecer ao som da lenha a crepitar cá dentro e da chuva e do vento lá fora… um
final de dia inesquecível.
Dia II
Rocalva-Videirinho-Prado
Lã-Fafião
O dia começou bem
cedo, ainda antes dos primeiros raios de sol aparecerem por detrás das nuvens,
já estávamos acordados e fora dos saco-camas. Fomos de imediato ver se as
roupas haviam secado, e para nossa surpresa estavam completamente secas
(abençoadas fibras sintéticas!!!), embora impregnadas com um forte odor a fumo…
paciência! Depois de prepararmos o pequeno-almoço, saímos do abrigo e
inspiramos o ar frio e limpo da manhã.
Roca Negra recebendo
os primeiros e escassos raios de sol
Arrumamos a trouxa e iniciamos
a descida em direcção a Fafião, não sem antes acompanharmos durante algumas
dezenas de metros o curso do pequeno ribeiro que atravessava o prado e que,
aparentemente, dirigia-se ao encontro de uma enorme fraga. Em boa hora o
fizemos. Assim que chegamos ao local, ficamos simplesmente de boca aberta. Um
dos nossos amigos chegou mesmo a dizer: “Epá, isto parece os Andes peruanos”.
Ainda tentamos procurar as ruinas de alguma cidade inca, mas como sabíamos que
estávamos no Gerês, desistimos da ideia, e retomamos o trilho em direcção ao curral
do Videirinho.
Não,
não são os Andes peruanos, é simplemente o Gerês no seu melhor
O sol voltava-se a
esconder por detrás das nuvens. Uma neblina fina e espessa começava lentamente a
subir a serra, cobrindo as encostas e vales da montanha à sua passagem. Num
pequeno colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas e que une dois
vales, servindo de passagem), paramos para observar o lindo vale do rio Laço, e na outra vertente da montanha, o
imponente desfiladeiro do rio Conho.
Vale do rio Laço
Abrigo de Prado Lã
Este tipo estava mesmo com cara de poucos amigos…
Já começávamos a ter
vistas sobre alguns dos locais por onde tínhamos estado no dia anterior e a
aldeia de Fafião estava cada vez mais próxima, faltava agora iniciar uma árdua descida.
Teríamos de efectuar um desnível de cerca de 700 metros em pouco mais de 5 km,
para no final voltar a subir pelo poeirento estradão até Fafião! Haja coragem!
Já faltou mais…
A partir deste ponto já se avistava finalmente a aldeia de
Fafião
Chegamos ao carro, pousamos
a mochila, fomos beber água da fonte e reabastecer os cantis. Um dos nossos
amigos disse: “Na aldeia da Lagoa ao Domingo há churrasco de boi”. Mantivemos
os fogareiros e os enlatados no interior das mochilas e enfiamo-nos no carro
rumo ao restaurante. A viagem de regresso foi, tal como no primeiro dia, ao som
dos Queens of the Stone Age e do memorável “Songs for the Deaf”.
Pedro Durães
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