«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

“No Rasto do Megalitismo na Serra da Aboboreira”

14 de Fevereiro

Acarinhada e venerada pelo Homem desde há milénios, a Serra da Aboboreira (maciço granítico integrado no sistema montanhoso Marão/Alvão) possui um dos mais importantes e bem preservado conjunto de monumentos megalíticos da Pré-História (Neolítico e Idade do Bronze, desde há 4 mil anos). Caminhar no planalto superior da Serra da Aboboreira é como regressar a uma espécie de primitiva pureza. É observar e ao mesmo tempo compreender a estranha relação que o homem manteve desde tempos imemoriais com a Mãe Natureza e a Montanha em particular, esse estéril ventre granítico onde o Homem desesperadamente tentou ao longo dos tempos retirar o seu miserável sustento, numa luta por vezes inglória pela sua própria sobrevivência. Desde logo, a desoladora paisagem que se estende ao longo de quilómetros e quilómetros de solos esqueléticos não é a mesma paisagem que os inocentes e assustados olhos do Homem Primitivo observaram. Ela, por si só, conta-nos a história da lenta transformação das densas florestas primitivas de carvalhos numa paisagem aberta devido ao desenvolvimento da actividade agro-pastoril (indício da sedentarização das comunidades da Pré-História). No amplo planalto superior, especialmente em redor das chãs e outeiros, encontra-mos uma enorme dispersão de vários túmulos funerários (Necrópole Megalítica da Serra da Aboboreira). Os monumentos megalíticos remontam aos primórdios da pedra polida e a sua construção não se limitava exclusivamente a cumprir uma função funerária de onde eram formalmente depositados os restos mortais dos defuntos. A construção dos túmulos em locais específicos e estratégicos servia também para marcar o território e estabelecer fronteiras. Segundo os arqueólogos, supõe-se que a construção dos monumentos de maiores dimensões (como por exemplo o Dólmen de Chã de Parada) requereriam uma entreajuda por parte das várias comunidades, numa clara demonstração de um amplo entendimento e consequente fortalecimento do espírito de coesão social entre os diferentes povos que em tempos idos habitaram as terras altas da Serra da Aboboreira.
Nos dias de hoje a Serra da Aboboreira continua a sentir o carinho e a veneração do Homem e ao longo das espraiadas encostas da montanha alguns pequenos aldeamentos vão salpicando em tons de verde o remendado manto de ossos e chagas que a severa paisagem impõe. Mas é precisamente lá em cima, onde a Aboboreira mais se aproxima do céu que a ancestral ligação do Homem com a Montanha ganha maior plenitude e entendimento. Onde cada amontoado de pedras como que adquire uma estranha mas ao mesmo tempo solene condição humana e os defuntos sussurram-nos aos ouvidos confidências e segredos que não podem ser revelados nas linhas deste post, ou não estivesse-mos nós, afinal de contas, a caminhar na mística e mórbida "Serra dos Mortos".

Pedro Durães

Foto-Reportagem

Aldeia “fantasma” de Almofrela

Aldeia “fantasma” de Almofrela
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Entrada no planalto superior da Serra da Aboboreira através de um caminho florestal em perfeito estado de conservação

Os processos erosivos provocados pela acção do Homem ao longo do tempo levou ao aumento dos afloramentos rochosos e ao surgimento de solos esqueléticos na paisagem. É precisamente este tipo de paisagem que podemos encontrar no planalto superior da Serra da Aboboreira

Rebanho caprino devidamente acompanhado por um cão de gado. Não demos foi com o pastor…

Conjunto Megalítico de Outeiro de Ante 1

Conjunto Megalítico de Outeiro de Ante 3

Esta simpática cadela acompanhou-nos durante todo o dia nesta nossa incursão às terras altas da Serra da Abobreira. Pelo que nos disseram na aldeia de Almofrela é usual ela servir de “guia” para quem se aventura por estas bandas
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Capela da Senhora da Guia envolta em nevoeiro
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Panorâmica
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Turfeira (zona húmida de montanha)

Pedra do Sol (batólito granítico)

Conjunto Megalítico de Meninas do Crasto 3. Pretendíamos visitar também aquela que é considerada como a “joia da coroa” da Necrópole Megalítica da Serra da Aboboreira (Dólmen de Chã de Parada), mas o agravamento das condições climatéricas (o nevoeiro continuava adensar-se cada vez mais) e a previsão de aguaceiros intensos para o período da tarde fizeram com que optássemos por cancelar a visita ao emblemático monumento L

Conjunto Megalítico de Outeiro de Gregos 2

 Conjunto Megalítico de Outeiro de Gregos 3

Caminho rural

Caminho rural

Bosque de carvalhos

Caminho rural

Foto final ao estábulo que serviu de abrigo para um almoço um tanto ou quanto tardio, mas a verdade é que a opcção de adiar a refeição para um local que fosse o mais próximo possível do ponto de início da caminhada foi sem dúvida alguma a decisão mais acertada. Mal tínhamos terminado o repasto veio uma monumental “tromba de água”! Coitadinhos de nós se andássemos por essa altura lá em cima, nas terras altas da Serra da Abobreira…
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)


Nota: Apesar de haver alguns percursos pedestres que percorrem as espraiadas encostas da montanha e o planalto superior da Serra da Aboboreira, a informação existente na internet é pouca e escassa. No entanto, podem consultar alguns desses percursos AQUI.


2 comentários:

Alberto Pereira disse...

Olá amigo Pedro;

Percorrer a "Serra dos Mortos" coberta por esse espesso manto de nevoeiro deve ter contribuído, e muito, para o aumento do 'misticismo' da caminhada, se é que assim lhe podemos chamar.
E daí saiu também a inspiração para esta tua bela publicação.

Grande abraço

Pedro Durães disse...

Olá amigo Alberto,

- Muito obrigado pela amabilidade demonstrada ao longo do tempo. Um Grande Bem-Haja!

Um Abraço Montanheiro,
Pedro Durães