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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

“Travessia Pelos Montes de Celorico de Basto (Castelo de Arnoia-Senhora do Viso)”

Dia 10 de Janeiro

Primeira caminhada de 2015. Pela primeira vez por montes e vales do pacato e beato concelho de Celorico de Basto. Tínhamos em mente uma pequena travessia pelo território celoricense, ligando aqueles que são por ventura dois dos mais emblemáticos símbolos do concelho.
O primeiro (ponto de partida) seria o românico Castelo de Arnoia, monumento nacional e ex-lybris da região. Na época em que foi construído (séc. XII/XIII) o castelo funcionou como um importante elemento na vigilância, defesa e salvaguarda de um amplo território. O castelo de Arnoia é a única estrutura de carácter militar que podemos encontrar nas denominadas Terras de Basto (território abrangido pelos concelhos de Celorico de Basto, Mondim de Basto e Cabeceiras de Basto). Felizmente a estrutura do castelo chegou quase intacta até aos nossos dias, faltando “apenas” uma das 2 torres originais, já que uma delas foi propositadamente desmantelada e cujas pedras sustentam hoje as paredes de algumas casas na antiga Villa de Basto, uma pequena povoação incrustada na vertente norte do morro do castelo. Abandonado e negligenciado pelo poder político local durante vários anos, o castelo e a povoação da antiga Villa de Basto (actual aldeia de Arnoia) tem beneficiado de obras de restauro que visam a reabilitação e valorização deste importante legado histórico e cultural, estando o monumento actualmente integrado na "Rota do Românico", um projecto intermunicipal que abrange 12 municípios do Tâmega e Sousa e que pretende promover o turismo cultural e paisagístico desta região nortenha.
Quanto ao destino final desta nossa travessia, esse seria o altivo Monte do Viso (856m), ponto mais elevado do território celoricense e palco de uma das mais devotas romarias da região. Local onde o divino e o profano, na data assinalada (segundo Domingo do mês de Setembro), andam de mãos dadas. A pequena e recentemente restaurada Ermida da Senhora do Viso situa-se, como todas as outras, no alto de um descampado, rodeada de fragas. A festa em nada difere de muitas outras realizadas por esse Minho fora. Milhares de homens e mulheres aglomerados no alto de um monte, falando, abraçando-se, gesticulando, acotovelando-se. Em volta do santuário as mais devotas e beatas ajoelham-se e com as rótulas quase à mostra da areia grossa do chão vão saldando as contas do seu próprio rosário. O pároco da freguesia, dentro do templo purificador, acaba por invariavelmente recitar a velha e já mais que gasta ladainha do costume, e o povo, cá fora, ouve as palavras cuja significação não consegue compreender, mas a verdade é que isso pouco importa. O que aqui interessa é somente respeitar os rituais sagrados, cumprir com aquilo a que estupidamente chamamos de tradição. E com a face da cara coberta por um arrependimento que não sentem, batem com a mão no peito, baixam instintivamente a cabeça e das suas bocas sujas sai o ámem que o padre ordena e "O Senhor" reclama, e no final, comungam. Cum caralho, durante o decorrer deste tipo de festividades será que a Montanha sobe mais, ou o céu desce um pouco?
Mas entre um e outro local o que poderá, afinal de contas, o caminheiro encontrar? Muito. A verdejante ruralidade do Minho, com os seus campos de cultivo e regadios e os seus belos e frondosos bosques de carvalhos. Mas se há algo que nos capta a atenção é sem dúvida alguma a constante e indelével marca da presença do homem, invariavelmente cravada em pedra bruta. O chão, as casas, as eiras e espigueiros, os velhos cruzeiros e as suplicantes alminhas são apenas alguns dos testemunhos petrificados de uma herança cultural profundamente enraizada na Terra e no árduo trabalho para dela retirar o seu sustento. Resquícios de uma vida outrora transformada em autêntico calvário, num longo e penoso caminho e cuja morada do almejado e merecido descanso encontra-se sepultada sete palmos de terra debaixo de chão nativo. É precisamente essa a morada final de cada um de nós. Carpe Diem!

Pedro Durães


Foto-Reportagem

Nascer do sol a partir do posto de vigia do Monte do Calvelo, em Celorico de Basto. Ao fundo, no lado esquerdo da foto, destaca-se na paisagem o maciço da Serra da Cabreira, em Cabeceiras de Basto. E do lado direito da foto é possível vislumbrar a silhueta do Monte Farinha, com o respectivo maciço da Serra de Alvão por detrás, em Mondim de Basto

Castelo Românico de Arnoia
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Acesso e entrada para o Castelo Românico de Arnoia (acesso apenas possível por via pedonal)

Panorâmica para as terras do Tâmega e Sousa a partir da torre de menagem do castelo

Vista para os montes celoricenses. Do lado esquerdo da foto ergue-se o altivo Monte do Viso (856m), o ponto mais elevado do concelho de Celorico de Basto

Foto de grupo no cimo da torre de menagem do castelo
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

Burgo da antiga Villa de Basto (actual aldeia de Arnoia)

Pelourinho junto à antiga Escola Primária de Arnoia, recentemente reconvertida em Centro Interpretativo do Castelo Românico de Arnoia

Bosque misto

Vale da Ribeira de Santa Natália (Borba da Montanha)

Caminho rural

Lugarejo de Afães

Lugarejo de Murgido, localizado aos pés do Monte do Castro. Em baixo, a Ribeira de Santa Natália lá vai pachorrentamente seguindo o seu curso, sempre rodeada por campos de cultivo

Sempre no bom caminho!

Cruz na capela de São Brás (lugarejo de Barrega) com elementos esculpidos em relevo que aparentam ser de cariz maçónico?…
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)

A recentemente restaurada Ermida da Senhora do Viso

!!!!!

Panorâmica a partir do cume do Monte do Viso (856m), com particular destaque para o maciço montanhoso composto pelas Serras de Alvão e Marão
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)


Maquete do Castelo Românico de Arnoia patente no centro interpretativo homónimo (localizado na antiga Escola Primária de Arnoia)
(Foto gentilmente cedida pelo camarada H. Miranda)


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