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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

"De Profundis"

A noite já vai longa… mas tornou-se ainda mais longa depois da leitura de um arrebatador… sim, talvez esse seja o adjectivo que melhor espelha o curto espaço de tempo em que a retina leu, o cérebro reflectiu, e o coração, depois, estremeceu. Fala-vos da leitura de um quente e fraterno conto torguiano, intitulado “O Caçador”, integrado na obra “Novos Contos da Montanha”- 13ª Edição. O conto relata as peripécias de vida do Trafona, o personagem principal da história. Velho, trôpego e reumático, o Trafona, outrora um hábil caçador, resignou-se às leis da idade, não lhe restando outra alternativa que não fosse a de caçar de emboscada nas cercanias da sua aldeia, longe dos montes que tanto estimava e amava. Durante o desenrolar da história, Miguel Torga, também ele um apaixonado da caça e da vida ao ar livre, expõe os múltiplos sentimentos de uma existência intrinsecamente ligada à Natureza. Ler este pequeno excerto do conto, é, também, expor de uma forma talvez demasiado óbvia um pedaço do coração do autor deste blogue. Um “segredo”, chamemos-lhe assim, foi revelado, será certamente violado, mas também, pelo menos assim o espero, partilhado.
Pedro Durães


Gerês, 31 de Outubro de 2009


"O Caçador"

(…) – Por onde andas-te?
A pobre da Catarina, a princípio, ainda tentou encontrar naquele destino pontos de referência em que pudesse firmar-se. Mas as respostas vinham tão vagas, tão distantes, que se atirou às leiras e deixou o homem às carquejas. Não era que ele mesmo enredasse os caminhos e despistasse conscientemente a companheira. As peripécias da caça e a cegueira com que galgava os montes é que o impediam à noite de relatar o trajecto seguido. Se quisesse e soubesse dizer por que trilhos passara, falaria de veredas e carreiros que nunca conhecera, descobertos na ocasião pelo instinto dos pés e rasgados no meio de uma natureza cósmica, verde como uma alucinação, com alguns ramos vistos em pormenor, por neles pousar inquieto um pombo bravo ou se aninhar, disfarçada, uma perdiz. Às vezes até se admirava, ao regressar a casa, de tanta bruma e tanta luz lhe terem enchido simultaneamente os olhos. Serras a que trepara sem dar conta, abismos onde descera alheado, e um toco, um raio de sol, o rabo de um bicho, que todo o dia lhe ficavam na retina. É claro que nem sempre as horas eram assim. Algumas havia de perfeita consciência, em que nenhum pormenor da paisagem lhe escapava, as próprias pedras referenciadas, aqui de granito, ali de xisto. Mas, mesmo nessas ocasiões, qualquer coisa o fazia sonâmbulo do ambiente. Era tanta a beleza da solidão contemplada, despegava-se das serranias tanta calma e tanta vida, os horizontes pediam-lha uma concentração tão forte dos sentidos e uma dispersão tão absoluta deles, que os olhos como que lhe abandonavam o corpo e se perdiam na imensidão. Simplesmente, essa diluição contínua que sofria no seio da natureza não excluía uma posse secreta de cada recanto do seu relevo. Uma espécie de percepção interior, de íntima comunhão de amante apaixonado, capaz de identificar o panasco de Alcaria pelo cheiro ou pelo tacto.
A caça fora a maneira de se encontrar com as forças elementares do mundo. E nenhuma razão conseguira pelos anos fora desviá-lo desse caminho. A meninice começara-lhe aos grilos e aos pardais, a juventude e a maioridade passara-as atrás de bichos de pêlo e pena, e agora, velho, as contas do seu rosário aram meia dúzia de cartuchos que, sentado, ia esvaziando no que aparecia. E a vida, a de todos os dias e de toda a gente, com lágrimas e alegrias, ambições e desalentos, ficara-lhe sempre de lado, vestida de uma realidade que não conseguia ver. A aldeia formigava de questões e de raivas, e ele coava-lhe apenas a agitação de longe, vendo-a fumegar na distância, ao anoitecer, e acariciando-a então num cansaço doce e contemplativo.
- Casou a Dulce…
- Ah, sim?... (…)

(Excerto retirado do conto “O Caçador”, integrado na obra “Novos Contos da Montanha”-13ª Edição, páginas 54, 55 e 56, da autoria do poeta e escritor Miguel Torga)


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