«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"E enquanto vou vasculhando..."


Barroso, 28 de Setembro de 2014


E enquanto vou vasculhando a “Mensagem” de Fernando Pessoa, encontrei este belo poema…


“Nuno Álvares Pereira”

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

Fernando Pessoa



terça-feira, 14 de outubro de 2014

“Verdes são os campos”, de Luís de Camões


Barroso, 28 de Setembro de 2014


“Verdes são os campos”

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"Entre a Cabreira e o Barroso"

28 de Setembro

As previsões meteorológicas para o dia não eram de todo as mais animadoras (era esperada chuva, acompanhada de trovoadas ao longo do dia). Contudo, a possibilidade de uma eventual “janela de bom tempo” fez com que decidíssemos arriscar, e acabamos mesmo por colocar as botas ao caminho! O plano consistia em percorrer o PR8 "Trilhos de D.Nuno", um percurso homologado com uma extensão de 22 km e que acompanha a passagem de D.Nuno Álvares Pereira pela região das Terras de Barroso. Aliás, segundo nos conta a história local D. Nuno terá casado ainda muito jovem com D. Leonor de Alvim e vivido na região durante vários anos da sua vida.
Dispersas ao longo de um extenso vale aplanado, numa zona de transição geográfica entre as serras da Cabreira e Barroso, os pequenos núcleos rurais que constituem a freguesia de Salto, a maior freguesia do concelho de Montalegre, tanto em área (78,6 km2) como em população (2375 habitantes), são o testemunho edificado de uma curiosa e ancestral simbiose entre o homem e a natureza. Neste pitoresco recanto trasmontano a paisagem foi moldada de uma forma ordeira e harmoniosa. Para além de uma paisagem natural rica e diversificada, também podemos encontrar um vasto e riquíssimo património arquitectónico. Aliás, caminhar por qualquer uma das aldeias é por si só uma experiência a todos os níveis transcendental. Calçadas centenárias, antigas casas senhoriais, igrejas oitocentistas, velhos cruzeiros revestidos por líquenes, fontes seculares, currais cobertos por telhados de colmo, moinhos e fornos comunitários… enfim, uma panóplia de autênticas preciosidades que nos dias de hoje ainda servem os homens e mulheres que por aqui (ainda) resistem.
Mas a arte e o engenho desses homens e mulheres não se focou apenas no interior das povoações. Por toda a parte é possível avistar quilómetros e quilómetros de rectângulos viçosos, debruados em socalcos suaves e delimitados por muros de pedra sobreposta. Os lameiros são o fruto de anos de experiência e da necessidade de alimentar o gado doméstico nos longos e gélidos meses de Inverno. Caminhar no interior dos lameiros é como percorrer uma espécie de labirinto. Um sem fim de caminhos que se cruzam vezes sem conta e que, invariavelmente, acabam por ligar as casas e os campos ao bosque de carvalhos, que por sua vez conduz a um cantante ribeiro, para logo de seguida voltar a subir serra acima até às zonas de baldio, utilizadas nos meses quentes de verão como local de pastagem.
Quanto às previsões meteorológicas adversas, elas acabaram por ser isso mesmo, previsões que (felizmente) vieram a não se concretizar. Felizes pelo engano dos nossos amigos meteorologistas, lá fomos seguindo as pisadas de D.Nuno Álvares Pereira, uma das figuras mais marcantes e inspiradoras da nossa já longa história enquanto nação livre e independente. Os momentos vivenciados durante a caminhada em Salto podem não ter um lugar de importante relevo na história nacional, mas certamente ocuparão um lugarzinho especial no coração de quem por lá andou... algures, entre a Cabreira e o Barroso.

Pedro Durães


Foto-Reportagem

Parque de Lazer do Torrão da Veiga

Este pequeno trecho do caminho sobranceiro à Ribeira do Torrão é simplesmente fenomenal!

Lameiros e bosques de carvalhos nas imediações da aldeia de Paredes

Belíssimo exemplar de uma secular fonte

Caminho utilizado pela povoação de Paredes com o intuito de conduzir o gado até às zonas de pasto localizadas nas terras altas da Cabreira (Serra da Maçã)

Planalto serrano

Panorâmica sobre a Serra da Maçã. Este vasto planalto serrano é uma das zonas mais férteis em termos de pasto natural em todo o maciço montanhoso da Serra da Cabreira

Um pequeno curso de água ladeado por um frondoso bosque de bétulas

Lameiros floridos nas imediações da aldeia de Corva

Gado barrosão pastando nos campos agrícolas da aldeia de Amial

Uma secular e muito peculiar ponte

Entrada tradicional para um lameiro

Vale da Ribeira do Torrão. No lado esquerdo da foto podemos observar um pequeno descampado (Brigadoiro), e segundo nos conta a lenda local, era neste lugar onde D.Nuno Álvares Pereira vinha com os seus homens e cavalos treinar e aperfeiçoar as técnicas de combate. Curiosamente, ou talvez não, penso que o nome Brigadoiro eventualmente derive da palavra briga, ou seja: luta

A lenda local também nos conta que no preciso lugar onde esta foto foi obtida (Alto do Penasco da Corneta), e através de um corno de boi, D.Nuno Álvares Pereira chamava os seus guerreiros. A mesma lenda refere ainda que estes guerreiros teriam lutado ao lado do próprio D.Nuno na mítica batalha de Aljubarrota    

Caminho tradicional de onde se destaca um imponente e majestoso castanheiro

Zoom ao bucólico lugarejo de Cerdeira

Os caminhos tradicionais são de uma beleza por vezes indescritível!

        Foto de grupo junto a um secular carvalho localizado no antigo burgo de Salto
(Foto gentilmente cedida pelo camarada Gonçalo Mota)

Foto final à estátua do Condestável, situada na praça homónima na Vila de Salto (junto à igreja velha de Salto)