«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 19 de julho de 2014

"Pelos Trilhos do Vale do Alto Cávado"

12 de Julho


Nova incursão ao Barroso, e de novo o regresso ao vale encantado do Alto Cávado. Tendo como ponto de referência o já calcorreado PR4 "Trilho do Rio", decidi uma vez mais partir à descoberta de “novos” trilhos, lugares misteriosos, e, claro, novas e refrescantes sensações. Apesar de muitos dos lugares visitados não se encontrarem integrados no traçado do percurso homologado, a verdade é que alguns deles encontram-se a escassas centenas de metros, sendo mais que justificável uma visita. A minha opinião acerca do traçado do percurso já foi anteriormente publicada e pode ser lida precisamente AQUI. Resta-me, portanto, partilhar com o meu caro leitor a minha modesta opinião sobre os referidos spots que (infelizmente) encontram-se excluídos do percurso homologado.

Vista para a parte nascente do vale do Alto Cávado (Serra do Larouco)

Envolvente ribeirinha junto à margem direita do Rio Cávado (entre Paredes do Rio e Covelães): O Rio Cávado é sem dúvida alguma um dos mais bonitos e bem preservados rios de montanha do norte de Portugal. A envolvente ribeirinha do Rio Cávado transporta-nos para um mundo embebido de melancolia, marcado por um ambiente tipicamente campestre e profundamente telúrico.

Antigo caminho rural outrora utilizado pelas povoações do Baixo Barroso (aldeias de Cabril, Covelo do Gerês…) para se deslocarem até à Vila de Montalegre

Na parte superior da foto podemos observar o aldeamento de Paredes do Rio. Em primeiro plano podemos ver a encosta da margem direita do Rio Cávado, local por onde iríamos passar um pouco mais à frente, saltitando por entre lameiros e bosques de carvalhos

Carvalho centenário no meio de um campo de cultivo. No fundo da foto ergue-se a altiva e imponente Serra do Gerês

Ponte de madeira sobre o Rio Cávado entre as aldeias de Fiães do Rio e Paredes do Rio

Achei piada a esta moldura natural…

E sempre que nos aproximava-mos da margem do rio, lá ia o Kiko a banhos!

Envolvente ribeirinha do Rio Cávado

Aqui fomos literalmente forçados a interromper esta nossa exploração da margem direita do Rio Cávado quando um pastor visivelmente exaltado virou-se para nós e disse: «É sair do meio do campo de feno… ó caralho!!!». E a malta… basou!!!


Mata do Rio Mau e Cascata de Barrondas: O Vale da Ribeira de Rio Mau alberga uma das mais extensas e bem conservadas manchas autóctones de carvalhal do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O recôndito vale, profundamente encarquilhado e encaixado, é, por si só, um preciosíssimo tesouro ecológico, ambiental e paisagístico e que em nada fica a dever a outras “joias da coroa” do nosso único parque nacional.

Vale da Ribeira de Rio Mau e o seu pujante carvalhal autóctone

 Um carreirito irrompendo por entre o magnífico coberto florestal


 O vale é de tal forma escarpado e densamente arborizado que por vezes é impossível vermos o curso de água (Ribeira de Rio Mau)


Felizmente foi construído um passadiço em madeira e em alguns locais encontramos barras de apoio e alguns degraus estrategicamente colocados que conduzem o visitante em total segurança até à base da Cascata de Barrondas. É muito importante não sair do trilho/caminho. O local é extremamente perigoso e um passo em falso pode provocar uma queda mortal!

Cascata de Barrondas

 Fortuitamente, após um engano no caminho a tomar, encontramos esta levada e decidimos segui-la durante aproximadamente 2 km, sempre protegidos do sol pela copa das árvores. Magnífico!


Arrisco mesmo a dizer que este foi o trecho preferido do Kiko de toda a jornada pelo vale do Alto Cávado. E pela foto dá para perceber o porquê…


Capela e Miradouro de Santa Lúzia: Arquitectónicamente falando, a capela de Santa Lúzia, localizada no sopé da montanha do Rochão (1401m) não é mais que uma banal e tosca capelita construída pelas gentes da aldeia de Sezelhe com o singelo intuito de homenagear a referida santa. O local vale, apenas e só, pelas desafogadas vistas que se obtêm sobre o belo e imenso vale do Alto Cávado. Deste ponto estratégico podemos observar toda a bacia hidrográfica do Alto Cávado, desde a nascente do rio (Serra do Larouco) até ao estrangulamento e posterior queda das águas do rio junto à Albufeira de Paradela, local onde o jovem Cávado lambe pela primeira vez a dura e áspera penedia geresiana.

Panorâmica do vale do Alto Cávado a partir do miradouro da Capela de Santa Lúzia
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)

 Aldeia de Sezelhe em primeiro plano. Ao fundo podemos ver o curso do Rio Cávado já próximo do paredão da barragem


Albufeira do Alto Cávado. Ao longe podemos ver a montanha mãe da Serra do Larouco (1525m), de onde nasce precisamente o Rio Cávado


Igreja e Miradouro da Senhora da Vila de Abril: O complexo religioso da Senhora da Vila de Abril é, porventura, o mais idílico recanto de todo o vale do Alto Cávado. A igreja da Senhora da Vila de Abril foi em tempos um ermitério medieval, e o local encontra-se carregadinho não apenas de religiosidade, como também de misteriosas lendas. O santuário encontra-se integrado numa das várias rotas que outrora conduziam os peregrinos em direcção à mítica cidade do apóstolo Santiago, e onde os peregrinos (a maior parte deles leprosos) encontravam no local um precioso abrigo e repouso, na longa jornada até Santiago de Compostela. 

Um peregrino a caminho de Santiago de Compostela? Não. Apenas um errante e descomprometido montanheiro a caminho de algo que nem mesmo o próprio sabe ao certo o que é, o que procura. Mas já dizia o saudoso Bob Marley: «Who feels it, knows it. And no fucking God will guide me».
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)

 Igreja da Senhora da Vila de Abril


Panorâmica a partir do cruzeiro da Senhora da Vila de Abril
(Foto gentilmente cedida pelo amigo H. Miranda)

Aldeias de Sezelhe (esquerda) e Frades (direita). Por detrás dos aldeamentos espraiam-se os montes que formam uma fantástica linha de cumeada (fronteira luso-espanhola) que se estende ao longo de vários quilómetros desde a Serra do Larouco até ao majestoso planalto da Mourela. Um dia destes vou ter que colocar lá as botas…


Nota: Apesar de ter tido como ponto de referência o PR4 “Trilho do Rio”, devo salientar que todas estas derivações aumentaram consideravelmente não só a extensão, como o nível de dificuldade do percurso em relação ao traçado original. Penso que o total de quilómetros percorridos (contabilizando as derivações) ultrapassa largamente os 25 km. Os caminhos tipicamente rurais até podem ser simpáticos para os pés, os desníveis na montanha são pouco acentuados e consequentemente meiguinhos para as pernas, mas atenção: são mais de 25 km num constante sobe e desce pelos montes barrosões!

Pedro Durães