«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Não é um adeus... é só um até breve!


 
Larouco, 11 de Maio de 2013
(Foto gentilmente cedida pelo amigo Mário Marinho)
 


Derivado a uma cada vez mais próxima e (muito) desejada paternidade que se vai aproximando minuto a minuto, deixarei de caminhar e consequentemente publicar as “aventuras” vividas por esses montes fora durante os próximos tempos. O blogue ficará como que em pousio, e, tal como o autor, aguardará pacientemente pelo dia em que uma vez mais partirá em busca daquele simples e fugaz momento de deslumbramento que faz com que cada saída para a montanha seja por si só única e especial. Quanto ao desejado retorno, quem sabe se lá para meados de Abril…  é que não se trata de um adeus, é só um até breve!

Pedro Durães



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

“Fanatismo”, de Florbela Espanca


Barroso, 19 de Janeiro de 2014
 
 
"Fanatismo"

Minha alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
 
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...
 
«Tudo no mundo é frágil, tudo passa…»
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
 
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...» 
 
Florbela Espanca
 


sábado, 1 de fevereiro de 2014

“Travessia no Barroso II”

Dia II (Penedones - Montalegre)

19 de Janeiro

Às 7h o despertador toca, saio da cama, visto um casaco, abro a porta e saio para dar uma pequena volta. Enquanto caminho, faço curtas paragens para olhar em redor. A pequena aldeia de Penedones e as montanhas que se espraiam por detrás do aldeamento encontram-se cobertas por um admirável e imaculado mundo branco. Tinha caído um forte nevão durante a noite e madrugada. Havia sido informado sobre a possibilidade de queda de neve acima dos 1000 metros, mas não estava de todo à espera que a cota baixasse e a neve caísse com esta intensidade abaixo dos 800m.
Entro em casa, tomo o pequeno-almoço e preparo a mochila. O nevão poderia por em causa o plano que tinha delineado para este segundo e último dia desta "aventura" pelo Barroso. Teria que ser (ainda) mais cauteloso e evitar correr riscos desnecessários. Não caminhar por trilhos em más condições, contornar as vertentes mais altas e íngremes da montanha (onde certamente a acumulação de neve seria maior) e evitar a travessia de pequenas corgas e ribeiros seriam factores determinantes para concluir a jornada em total segurança.
Saio da aldeia de Penedones e sigo por um antigo caminho rural em direcção à vizinha Castanheira da Chã. Num ápice estou já a percorrer as ruelas da fantasmagórica aldeia, onde, como é natural, sou o único que por ali anda, embora algumas pessoas tenham já se levantado, a julgar pelo fumo que lentamente vejo sair das chaminés de algumas casas. À medida que ganho altitude vai-se tornando cada vez mais constante e audível o “Crac, Crac” dos meus passos na neve gelada.  Pisar aquela brancura imaculada, virginal, foi para mim um sentimento de enorme alegria e êxtase.  Um pouco antes de chegar ao colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas) do Boqueiro do Avelar o vento começa a soprar com bastante intensidade, arrastando consigo alguma neve. Decido abrigar-me provisoriamente no interior de um pinhal, onde, e vá-se lá saber porquê, aproveito a pausa para erguer um pequeno boneco de neve J
Determinado, prossigo a marcha em direcção ao Fojo do Lobo do Avelar e “conquisto” o cume da montanha onde há muitos anos atrás o povo da região erigiu uma pequena e rudimentar capela em homenagem a Nossa Senhora das Treburas. O local é também um dos mais conhecidos e belos miradouros naturais da região do Barroso.
À medida que me aproximo do fim os meus passos tornam-se cada vez mais demorados, mas não sinto cansaço. Visito o já conhecido parque de lazer da Corujeira e relembro anteriores visitas estivais onde, invariavelmente, acabava por dormitar uma curta sesta deitado na erva verde e fresca. A sensação de o ver branco como neste dia foi… estranha, mas ao mesmo tempo maravilhosa! Do miradouro homónimo contemplei belas e brancas vistas sobre a pequena vila de Montalegre e o imenso vale do Alto Cávado. O vento começa novamente a soprar forte e vejo uma ameaçadora massa de nuvens aproximar-se da vila. Dentro em breve voltaria a nevar. Desço e procuro abrigo nas quentes e acolhedoras paredes de uma casa barrosã.

Pedro Durães


Foto-Reportagem:

Aldeia de Penedones às primeiras horas de um novo dia
 
 Lameiros cobertos por um admirável e imaculado mundo branco
 
 Serra do Barroso “pintada de branco”
 
Apesar de não ser bem visível na foto, no canto superior direito encontra-se o casario da aldeia de Castanheira da Chã
 
 A partir daqui seria só “Crac, Crac…” J
 
Carvalhos cobertos por um majestoso manto branco
 
Zoom ao colo do Boqueiro do Avelar
 
   Uma efémera recordação da minha passagem por este local
 
Fojo do Lobo do Avelar
 
“Janela” para o vale do Alto Cávado
 
Carvalhal do Avelar
 
 Capela de Nossa Senhora das Treburas
 
 E aqui está um dos mais belos miradouros da região do Barroso
 
Parque de lazer da Corujeira
 
 «Let it snow, let it snow, let it snow»
 
 Zoom à pequena urbe barrosã
 
O belo e imenso vale do Alto Cávado