«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 21 de dezembro de 2013

Gente Dura, os Montanheiros!


 
 
Gente Dura, os Montanheiros!
 
"Rostos queimados pelo vento,
Olhos que buscam o destino no horizonte longínquo
... Gente dura, os montanheiros!
Aceitam o sopro gelado da
montanha,
Enfrentam o calor do seu abraço
nas duras encostas.
Numa quimera inútil e sem fim,
palmilham os trilhos!
... Gente dura, os montanheiros!
Gente que escuta a majestade do
silêncio nos grandes espaços,
Gente que explode de alegria com
o sucesso conjunto,
Gente que se detém extasiada na
imensidão das paisagens,
Gente pronta a dar a mão ao
companheiro,
... Gente dura,os montanheiros!"
José Carlos Machado


Aproveito a publicação deste post para desejar a todos um FELIZ NATAL e um 2014 repleto de montanhas... de FELICIDADE!!!

Pedro Durães
 
 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

“Por Terras de Basto”

7 de Dezembro

E uma vez mais… a Cabreira! Sempre a Cabreira, vai-se lá saber porquê… Na realidade, há já muito tempo que estava nos meus planos (que parecem não ter fim) a realização de uma “cabreirada” por Terras de Basto e aproveitar a ocasião para visitar (pela primeira vez) alguns pequenos aglomerados serranos que por ali se encontram. Estranhamente, ou talvez não, é precisamente ao longo da escarpada vertente este da montanha que podemos encontrar algumas das mais típicas e bem preservadas aldeias da Cabreira.
Partindo da aldeia de Busteliberne através de um secular caminho de pastoreio, acabamos por ganhar rapidamente altitude, indo ao encontro de antigas pastagens de montanha. Aqui e ali, ainda é possível vislumbrar vestígios de antigos muros de pedra sobreposta e ruínas de pequenas habitações vão surgindo no caminho para espanto de quem erradamente deambula por aquele local ermo e inóspito.
 
Antigo caminho de pastoreio que conduz às pastagens localizadas nas terras altas da Cabreira 

Ruínas de uma antiga Branda em plena Serra da Cabreira? 
 
 
Enquanto serpenteamos a pedregosa encosta da montanha, numa curva do caminho, um punhado de viçosos lameiros apresentam-se como uma lufada de ar fresco na monotonia granítica da paisagem. O contraste provocado pelo verde dos lameiros, o roxo das bétulas, o amarelo dos carvalhos e o cinzento das rochas não só fizeram as delícias de uma retina mais atenta, como acabaram também por dar muita cor e vida à fotografia.
 
E numa curva do caminho, surge-nos esta bela paisagem serrana!
 
Uma “janela” para o Alto do Facho (1121m) 

Lameiros ou prados de lima
 
Gado Barrosão
 
 
E a pequeníssima aldeia de Porto D’Olho ali estava para nos acolher. Amarrada no sopé da colina do Outeiro da Varela, esta pequena aldeia de onde habitam não mais que meia dúzia de almas vai resistindo como pode ao progressivo abandono e esquecimento que ano após ano vai tomando conta desta e de outras pequenas aldeias da Cabreira. Do cume do Outeiro da Varela abraça-se uma paisagem belíssima. Aqui, o Minho ganha altura, diria até, uma certa robustez… enfim, tenta não parecer pequeno e frágil perante um Trás-os-Montes que se ergue altivo e dominador num horizonte não muito longínquo.
 
Vista para a pequena aldeia de Porto D’Olho. No canto superior esquerdo ergue-se o imponente cume das Torrinheiras (1191m)

Panorâmica da área envolvente da aldeia de Travassô. Ao fundo já se avista o “vizinho” Trás-os-Montes 

Em primeiro plano podemos ver a silhueta do Monte Farinha. Ao fundo as montanhas do Marão/Alvão
 
 
Basta passar na única rua que trespassa a aldeia de Travassô, sentir a pulsação dessa artéria viva para ficarmos desde logo com a estranha sensação de recuar largas dezenas de anos atrás, até meados do século passado. Cercada por uma intrincada rede de caminhos murados que permitem o acesso de homens e animais aos lameiros e campos agrícolas, Travassô preserva ainda uma tipicidade arquitectónica invejável, visível não apenas nas belas casas ao estilo senhorial, mas sobretudo nas mais humildes (mas não menos belas) habitações, toscamente alicerçadas com o duro granito da região.
 
E paulatinamente deixava-mos para trás a aldeia de Travassô. A colina que se ergue no canto superior esquerdo é o Outeiro da Varela. No cume encontra-se uma capelita em homenagem a N. Sra. Mãe da Igreja 

Alguns cumes espreitam-nos por cima de um bosque em tons dourados. É o último fôlego de um Outono visivelmente cansado, prestes a ceder o lugar a um Inverno que se aproxima a passos largos


Depois de um merecido e relaxado repasto junto a um lameiro, onde gozamos de um muito bem-vindo sol outonal, que apesar de não aquecer também não deixava resfriar o corpo, era chegada a altura de visitar a denominada Área de Lazer de Moinhos de Rei. Na realidade, trata-se da recuperação de um antigo conjunto de moinhos construídos no reinado de D. Dinis, primeiro rei que incentivou e desenvolveu a rudimentar indústria de moagem, numa época em que a actividade era realizada quase exclusivamente pelo esforço do homem ou do animal. Lição de história à parte, a área de lazer em si é um local bastante agradável, encontrando-se revestida por um exótico bosque e onde se localiza também o Posto de Fomento Cinegético da Serra da Cabreira: conjunto de cercados que visa a recuperação e posterior libertação de algumas espécies faunísticas da região como o veado, o corço, o coelho-bravo, a perdiz, entre outras. Resta saber se a ideia aqui é criar as condições com vista à recuperação não apenas das espécies como também (e não menos importante) habitat, ou então a ideia é pura e simplesmente alimentar o lobby da caça (i)legal. A Serra da Cabreira é hoje uma imensa área partilhada por várias associações de caça, e como todos nós sabemos, caçador que é caçador não pode chegar a casa de “mãos abanar”! Algum “troféu” terá que levar, alguma vida terá que ceifar…

Área de Lazer de Moinhos de Rei. As mesas e a restante indumentária dos “pique-niqueiros” encontram-se debaixo das copas dos ciprestes
 
A levada encontrava-se limpa de mato, o que permitiu acompanhá-la durante algumas centenas de metros J
 
Apesar de não ser bem visível na foto, ao fundo encontram-se os cercados do Posto de Fomento Cinegético da Serra da Cabreira 
 

E Busteliberne encontrava-se cada vez mais perto, mas antes de chegarmos ao aldeamento ainda tivemos que parar junto à Ponte da Víbora devido a um “congestionamento de trânsito” provocado por meia dúzia de vacas barrosãs pachorrentas e visivelmente (muito) bem alimentadas, que cambaleando ora para a esquerda, ora para a direita, decidiram ocupar praticamente todo o caminho, e como mais vale prevenir do que remediar, nada melhor que a malta desviar-se um pouco... A visão que obtivemos sobre o casario e a envolvente da aldeia de Busteliberne foi algo de verdadeiramente surpreendente, diria até… mágico! Com a tarde alongar-se e o fim do dia aproximar-se rapidamente, Busteliberne encontrava-se envolta num “mar” de cores quentes, com os amarelos, os castanhos e os vermelhos a dominarem e a realçarem todo aquele cenário verdadeiramente idílico. Foi sem dúvida alguma a cereja no topo do bolo neste retorno aos montes da Cabreira, desta vez por Terras de Basto. 

Envolvente ribeirinha junto à Ponte da Víbora
 
Carvalhos “cor-de-fogo” ladeiam os muros de pedra sobreposta nas imediações da aldeia de Busteliberne

Busteliberne ao fim do dia…
 
… e toca a tirar rapidamente a foto de grupo antes que a luz se vá embora!  


Pedro Durães