«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quarta-feira, 24 de julho de 2013

PR4 “Trilho do Rio” (Montalegre)


20 de Julho

«Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.»

(Miguel Torga in “Diário XVI”, páginas 98 e 99)
 

Já começa a ser um hábito a publicação de pequenos textos do poeta/escritor Miguel Torga. Já não é segredo para ninguém a minha profunda admiração pela obra literária do poeta. Mas Miguel Torga não foi apenas um grande poeta, foi também um grande homem! Umas das suas principais virtudes era sem dúvida o seu carácter, profundamente assente em valores humanistas. Aliás, Miguel Torga nasceu e foi criado nas serras transmontanas, numa comunidade de trabalhadores rurais (aldeia de São Martinho de Anta, Marão). Desde muito cedo Miguel Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza. Essa sua sensibilidade perante o quotidiano rural pode ser lida precisamente no texto acima publicado.
Como é natural, o Barroso de hoje já não é o mesmo aquando das primeiras viagens do poeta, em meados do século passado. As “garras” do progresso acabam por chegar a todo o lado, inexoravelmente. Mesmo a este pedaço de terra agreste e distante, chamado Barroso. As gentes barrosãs, como todas as outras no nosso país, acabaram por adoptar este “novo mundo”. Como o poeta referiu, o povo «deixou de comer o pão de centeio do forno comunitário», e embora o forno permaneça exactamente no mesmo local, a sua utilidade já não é cozer o pão, mas servir de atracção turística. O mesmo podemos dizer dos moinhos que por lá continuam a ladear o curso de pequenos ribeiros, mas já não moem os grãos de centeio para levar para o forno comunitário… E o casario da aldeia, outrora castamente aninhado e concentrado, encontra-se agora orgulhosamente disperso e altivo, numa pura demonstracção de “triunfo” por parte dos filhos da terra, em pleno contraste com a realidade das pessoas que por lá ousaram ficar, a essas sim, podemos chamar de vencedoras, dignas de todos os louvores, recusando abandonar a sua terra, o seu lar, o seu parco e miserável sustento.
Mas as marcas do progresso (ou será retrocesso?) não se confinam apenas ao interior e à envolvente dos aldeamentos. O jovem Cávado já não corre livre e selvagem pelo verdejante vale, uma parede de betão estancou a vida, emudeceu o seu cântico. Das cumeadas da montanha já não se ouve o lendário uivo do lobo, mas o “arrepiante” e constante som das turbinas eólicas, que giram… giram… giram...
Apesar de tudo, a verdade é que os símbolos desse “velho Barroso” continuam presentes. E é precisamente um dos objectivos do PR4 "Trilho do Rio", servir de janela para esse mesmo mundo. Apesar da traça arquitectónica das aldeias encontrar-se cada vez mais descaracterizada, ainda é possível caminhar por becos e ruelas estreitas, cercados por casas alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados de colmo, desembocar em pequenas praças e encontrar velhos cruzeiros revestidos por líquenes, beber em fontes de água fresca e cristalina.
Percorrer os ancestrais caminhos de ligação entre aldeias, é, por si só, uma experiência inolvidável. Os caminhos são geralmente ladeados por muros de pedra sobreposta, encontrando-se cobertos por uma delicada camada de musgo, enquanto que do outro lado do muro, viçosos lameiros debruçam-se pela encosta abaixo. E por todo o lado uma densa rede de carvalhos envolve todo aquele cenário idílico. Aliás, é precisamente no vale do Alto Cávado que podemos encontrar uma das maiores e mais bem conservadas manchas autóctones de carvalhal no nosso país.
O Barroso de hoje pode ter perdido a «força testicular» de outrora, mas sem dúvida alguma é um daqueles locais que nos cativam, que nos prendem… pelo menos a mim.

Pedro Durães
 
Fotorreportagem:
 
Panorâmica da albufeira do Alto Cávado

É precisamente aqui que o jovem Cávado tem o seu primeiro contacto com as paredes de betão das albufeiras

Panorâmica da aldeia de Frades
 
Típico caminho rural

Vale do Alto Cávado. Do lado esquerdo podemos observar a cumeada da serra do Larouco, do lado direito e bem menos visível o castelo medieval de Montalegre

Cruzeiro no centro da aldeia de Sezelhe. No canto superior esquerdo podemos ver um típico relógio de sol

Torre do boi, uma homenagem ao boi barrosão

Mata do Rio Mau (localizada no interior do PNPG)
 
Tão novinho e já com umas impressionantes barbinhas
 
Um dia destes tenho de colocar as botas naquele vale (Mata do Rio Mau)
 
Aldeia de Travassos

 
O vale do Alto Cávado é assim mesmo, com carvalhos a rebentar por todos os lados
 
Espelho de água no rio Cávado

 
Pormenor de um pequeno trecho do trilho
 
Campo de centeio
 
Que bem que sabe caminhar por debaixo das copas das árvores dos carvalhos J