«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Serra do Ourigo- “PR2 Trilho do Ourigo”

13 de Outubro de 2012
 
Introdução:
De novo em Montalegre, e de novo a descoberta de novas montanhas e novos horizontes. Há já algum tempo que tinha a intenção de calcorrear o"PR2 Trilho do Ourigo". Aproveitando uma «janela de bom tempo», depois de uma semana de chuva, lá nos dirigimos finalmente para a barrosã serra do Ourigo. Tal como acontece com praticamente todos os percursos de montanha que se encontram fora dos locais turísticos, chega a ser difícil obtermos informação suficiente em relação ao percurso escolhido. Entre outros factores, penso que a pouca utilização, e consequente divulgação, deve-se, em certa medida, a uma notória falta de interesse por parte dos montanheiros (pessoas que normalmente utilizam a montanha para a realização de actividades desportivas e de lazer) pelos percursos pedestres que se encontram fora da área abrangida pelo PNPG. Pelo que me tenho apercebido ao longo dos últimos anos, tem-se criado uma espécie de «culto» em torno do PNPG, onde para muita gente a palavra montanha (em especial no norte do país) é sinónimo de Gerês, e pouco mais. A verdade, porém, é que não podiam estar mais erradas! Há todo um reino maravilhoso para descobrir, que vai muito para além das penedias da Peneda-Gerês. E «o que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.» As montanhas da serra do Ourigo são um desses locais!
 
Descrição:
Decidimos começar o percurso na recôndita aldeia de Castanheira da Chã, e utilizando um antigo caminho rural, fomos caminhando por entre diferentes campos de cultivo e lameiros. Paulatinamente, o caminho vai subindo ao longo da encosta este da serra do Ourigo, de onde é possível obter vistas fantásticas sobre o lençol de água da Albufeira do Alto Rabagão (a maior albufeira do país, antes da construção da barragem do Alqueva) e sobre a serra do Barroso.
 
Caminho rural que liga a aldeia de Castanheira da Chã ao Ourigo
 
Encosta este da serra do Ourigo. Daqui podemos contemplar uma vista fantástica sobre a Albufeira do Alto Rabagão (Pisões) e a serra do Barroso
 
Chegados ao Ourigo, local onde se encontra mais uma abandonada e vandalizada casa do guarda-florestal (aonde é que eu já vi isto…), circundada por um exótico bosque (uma amálgama de diferentes tipos de pinheiros e cedros), alcançamos, um pouco mais á frente, o ponto mais alto do percurso. Transposta a linha de cumeada, onde se localiza mais uma aberração da natureza (leia-se parque eólico), as vistas ganham novo fôlego, e os picos do Gerês, em particular os Cornos de Fonte Fria, surgem com todo o seu esplendor e força bruta, apesar da enorme distância que nos separa. Bem mais perto, encontra-se o «Deus Larouco», que irá passar a dominar a paisagem durante praticamente todo o dia, bem lá em cima, na altivez dos seus 1525m.
 
    Encosta oeste da serra do Ourigo. Ao fundo já podemos observar o imponente «Deus Larouco»
 
    Serra do Larouco e as aldeias de Mourilhe (á esquerda) e Sabuzedo (á direita)

Montalegre. Uma ideia... da natureza!


Após uma rápida passagem pela aldeia de Cambezes do Rio, onde a vida comunitária encontra-se bem presente nos dias de hoje, exemplo disso a utilização do forno comunitário e dos moinhos comuns, continuamos a marcha por um caminho que, a pouco e pouco, vai sendo engolido por uma mata jovem, qua a cada passo se vai tornando cada vez mais densa e «envelhecida». A Mata do Avelar (um deslumbrante carvalhal autóctone) é um daqueles locais que nos cativam, não só pela extrema beleza natural, mas também por uma estranha sensação de conforto e candura, que faz com que não queiramos sair daquele mundo mágico.
 
Entrada na Mata do Avelar

Um carvalhal deslumbrante!

Um raro (e ao mesmo tempo abundante) Azevinho
 

Infelizmente, tínhamos que continuar a caminhar. O próximo destino seria o Fojo do Lobo do Avelar. Os fojos surgiram da necessidade de caçar os lobos, que punham em causa a segurança dos rebanhos. Os muros convergentes, em forma de "V", encaminhavam os lobos (através de batidas organizadas), em direcção a um poço, onde os lobos depois de caír, ficavam presos. Aproveitamos o cenário do local para almoçar. Enquanto comia o meu repasto, não parava de pensar na persistência dos homens do passado, a transportar a pedra serra acima, construir esta verdadeira muralha, e, depois, andarem que nem «loucos» a correr encosta acima, encosta abaixo, a tentar empurrar os lobos para o buraco fatal. E ainda nos queixamos do tempo em que vivemos…
 
Estradão florestal de acesso ao Fojo do Lobo do Avelar
 
 Fojo do Lobo do Avelar
 
Descida do Fojo do Lobo do Avelar em direcção à aldeia de Torgueda
 
A partir do fojo do lobo o caminho é quase sempre a descer por extensas zonas de mato, dominados por giestas, urzes e carquejas. Devo realçar ainda a passagem pela aldeia de Torgueda e o bonito caminho rural que liga a referida aldeia a Castanheira de Chã, através de um bucólico caminho que ladeia os campos e os lameiros, e apesar de estarmos em pleno Outono, eles continuam incrivelmente floridos e perfumados!
 
Novamente na encosta este da serra do Ourigo, onde os horizontes alargam-se muito para além das terras do Barroso
 
Um lameiro bem florido e perfumado, com as cores quentes do fim de tarde a fazerem-se notar
 
Aqui estão os «cromos» de mais um dia (muito) bem passado... na montanha!
 
Pedro Durães