«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Serra do Gerês- “Trilho da Vezeira”

 2 e 3 de Junho de 2012



Dia I
Fafião-Porto da Laje-Sombrosas-Fichinhas-Mourisca-Rocalva
Muito haveria a dizer acerca desta pequena aventura pelas montanhas do Gerês, no entanto, vou tentar ser breve. Logo pela manhã, à saída da aldeia de Fafião, um «mar» de nuvens, de semblante carregado, pairavam sobre as nossas cabeças. Percorremos os primeiros 3 quilómetros do trilho através de um monótono estradão florestal, subindo pausadamente, até desembocarmos num pequeno planalto, onde optamos por seguir o rasto de umas mariolas, penetrando desta forma na encosta este do vale do rio do Porto da Laje, em vez de continuarmos pelo referido estradão.
Estradão florestal que liga a aldeia de Fafião ao Porto da Laje

O trilho desenvolve-se a sensivelmente meia encosta, por um caminho bastante sinuoso, e desaconselhável em dias de chuva. Em certos locais chega a ser difícil ver o próprio caminho, com algumas passagens delicadas, onde uma eventual queda poderá dar direito a uma «viagem» de dezenas de metros pela montanha abaixo… no entanto, é uma experiência incrível.
Vale do rio do Porto da Laje, com as Sombrosas à vista

A partir deste ponto as Sombrosas passam a dominar a paisagem. Fizemos uma rápida visita ao abrigo do Porto da Laje, o primeiro de muitos que iriamos encontrar durante os próximos dias. O Porto da Laje, basicamente, não é mais que um simples muro de betão colocado no meio da serra, mas a envolvente provocada pela retenção das águas a montante forma um bonito «lago», onde a tonalidade azul púrpura da água é fenomenal.
Paramos para almoçar no abrigo da Touça, estrategicamente localizado na confluência do vale do rio Laço, com o vale das Sombrosas. Findo o almoço e respectiva pausa para uma curta siesta, colocamos novamente as mochilas às costas, e assim que começamos a caminhar, uns ligeiros chuviscos começaram de imediato a cair. As vistas sobre o vale do rio da Touça eram de facto lindíssimas. «Cá em baixo» tínhamos as suas lagoas naturais, e «lá em cima» a imponente parede das Sombrosas… fantástico!
A majestosa parede das Sombrosas

Os chuviscos iam lentamente passando a aguaceiros, e a roupa começava finalmente a ficar cada vez mais molhada e pesada… Mau! E ainda tínhamos pela frente a subida do vale das Fichinhas e da Mourisca! Vamos lá deixarmo-nos de lamúrias e toca a subir… a subir… a subir…
Vale das Fichinhas

Ainda paramos para inspecionar o abrigo das Fichinhas e constactar que o mesmo se encontrava devidamente limpo e seco. Como a ideia era pernoitar no curral da Rocalva, decidimos continuar a subida. Assim que terminamos a penosa subida da Mourisca, sentimos que íamos na direcção errada. Paramos. Retiramos o mapa e a bússola e debatemos a situação. De facto, tínhamos efectuado um pequeno desvio, e poucas dezenas de metros mais á frente apanhamos novamente o rasto de mariolas. A confirmação de que estávamos no trilho certo veio logo depois com o avistamento do «farol» da Rocalva. Que alívio! A ideia de uma noite ao relento começava a pairar no ar…
No trilho certo, com a fraga da Rocalva a servir de «farol»

Com o ambiente finalmente desanuviado, as últimas centenas de metros foram como que um descontraído passeio pelo «campo», com paragens para muita fotografia e sorrisos rasgados. Mas o melhor ainda estava para vir... Assim que alcançamos o curral da Rocalva e entramos para o abrigo, a surpresa foi total. O abrigo encontrava-se não só limpo e seco, como ainda tinha lenha empilhada! Palavras para quê… Toca acender a fogueira, retirar a roupa molhada, preparar o jantar, tomar café ou chá, conforme as preferências de cada um, deitar no interior de um saco-cama quentinho e adormecer ao som da lenha a crepitar cá dentro e da chuva e do vento lá fora… um final de dia inesquecível.
O merecido descanso no interior do curral da Rocalva


Dia II
Rocalva-Videirinho-Prado Lã-Fafião
O dia começou bem cedo, ainda antes dos primeiros raios de sol aparecerem por detrás das nuvens, já estávamos acordados e fora dos saco-camas. Fomos de imediato ver se as roupas haviam secado, e para nossa surpresa estavam completamente secas (abençoadas fibras sintéticas!!!), embora impregnadas com um forte odor a fumo… paciência! Depois de prepararmos o pequeno-almoço, saímos do abrigo e inspiramos o ar frio e limpo da manhã.
Roca Negra recebendo os primeiros e escassos raios de sol

Arrumamos a trouxa e iniciamos a descida em direcção a Fafião, não sem antes acompanharmos durante algumas dezenas de metros o curso do pequeno ribeiro que atravessava o prado e que, aparentemente, dirigia-se ao encontro de uma enorme fraga. Em boa hora o fizemos. Assim que chegamos ao local, ficamos simplesmente de boca aberta. Um dos nossos amigos chegou mesmo a dizer: “Epá, isto parece os Andes peruanos”. Ainda tentamos procurar as ruinas de alguma cidade inca, mas como sabíamos que estávamos no Gerês, desistimos da ideia, e retomamos o trilho em direcção ao curral do Videirinho.
Não, não são os Andes peruanos, é simplemente o Gerês no seu melhor

O sol voltava-se a esconder por detrás das nuvens. Uma neblina fina e espessa começava lentamente a subir a serra, cobrindo as encostas e vales da montanha à sua passagem. Num pequeno colo (ponto mais baixo situado entre duas montanhas e que une dois vales, servindo de passagem), paramos para observar o lindo vale do rio Laço, e na outra vertente da montanha, o imponente desfiladeiro do rio Conho.
Vale do rio Laço

A descida continuava com um bom ritmo, e ainda tivemos tempo para espreitar o abrigo de Prado Lã, que possui uma vista privilegiada para os Bicos Altos. Os Bicos Altos são uma interessante linha de cumeada, cujas «agulhas» vão-se erguendo de forma abrupta ao longo do vale, dominando a paisagem envolvente.
Abrigo de Prado Lã

Quando paramos para apreciar os Bicos Altos, olhamos em redor, e reparamos que algumas rochas possuíam formas verdadeiramente surreais. Começamos de imediato a tentar descobrir a que ser correspondia a devida rocha, e quando olhamos para uma em particular, que aparentemente estava com cara de poucos amigos, decidimos descer… rapidamente…
Este tipo estava mesmo com cara de poucos amigos…

Já começávamos a ter vistas sobre alguns dos locais por onde tínhamos estado no dia anterior e a aldeia de Fafião estava cada vez mais próxima, faltava agora iniciar uma árdua descida. Teríamos de efectuar um desnível de cerca de 700 metros em pouco mais de 5 km, para no final voltar a subir pelo poeirento estradão até Fafião! Haja coragem! Já faltou mais…
A partir deste ponto já se avistava finalmente a aldeia de Fafião

Chegamos ao carro, pousamos a mochila, fomos beber água da fonte e reabastecer os cantis. Um dos nossos amigos disse: “Na aldeia da Lagoa ao Domingo há churrasco de boi”. Mantivemos os fogareiros e os enlatados no interior das mochilas e enfiamo-nos no carro rumo ao restaurante. A viagem de regresso foi, tal como no primeiro dia, ao som dos Queens of the Stone Age e do memorável “Songs for the Deaf”.
Pedro Durães

Para uma informação mais detalhada acerca do percurso, clica AQUI