«Querido leitor, escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste blogue»

sábado, 28 de abril de 2012

Serra do Barroso- “Nas Alturas do Barroso”

 10 de Março de 2012


«Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo da alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue de um semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lha pede em casamento:
Pastora é,
Gado guardou;
Sebes saltou:
Se nalguma se picou,
Tal como está
Assim vo-la dou…»
Miguel Torga, in "Diário VIII", pág. 41



«Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956.

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhes dá a simples protecção de as respeitar.»
Miguel Torga, in “Diário VIII”, pág. 42



Características do percurso:

. Trilho circular e homologado ("PR1.2 Atilhó-Atilhó" / "PR1.1 Atilhó-Alturas do Barroso"), percorrido exclusivamente por caminhos rurais. O percurso efectuado teve o sentido Vilarinho Seco-Atilhó-Alturas do Barroso-Vilarinho Seco, a parte final do trilho foi feita por um antigo caminho rural que liga a aldeia das Alturas do Barroso a Vilarinho Seco (não consta do percurso homologado)
. Grau de dificuldade fácil/moderado, com uma extensão de aproximadamente 12 km e desníveis pouco acentuados
. Como pontos de interesse destaco as aldeias de Vilarinho Seco e Alturas do Barroso, uma interessante simbiose entre paisagem natural e humanizada e os Cornos das Alturas do Barroso

Algumas fotografias do dia

Aldeia de Vilarinho Seco

Se estivéssemos no Verão...

Um dos vários moinhos que encontramos pelo caminho

Caminho rural de ligação Atilhó-Alturas do Barroso

Relógio de sol. Consegues descobrir a que horas esta foto foi tirada? É só olhar para o relógio


Cornos das Alturas do Barroso, vista a partir da aldeia com o mesmo nome

 
No cume dos  Cornos das Alturas do Barroso

Panorâmica da albufeira do Alto Rabagão (Pisões)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Serra do Alvão- "Paisagens do Alvão"


 25 de Fevereiro de 2012


"O Parque Natural do Alvão, situado na região oeste de Trás-os-Montes, é um pequeno reino de cascatas e desfiladeiros. Nesta área protegida de reduzidas dimensões, com pouco mais de 7000 hectares, o visitante irá deparar-se com uma surpreendente diversidade paisagística, originada, acima de tudo, pela sua topografia acidentada e fortemente influenciada por diferentes tipos de clima. Invariavelmente associado a uma conhecida cascata, cujas águas do rio Ôlo se precipitam sobre uma impressionante parede de rochas arqueadas e fracturadas, as Fisgas do Ermelo são o ex-líbris do parque natural, e local de romaria nos meses de verão.
No entanto, há um outro Alvão a descobrir. Um Alvão mais humano, composto por homens e mulheres que juntos moldaram a inóspita paisagem e que diariamente retiram das entranhas da serra o seu sustento. É um prazer, e simultaneamente uma aventura, acompanhar as margens selvagens e ruidosas do rio Ôlo, bordeadas por belíssimos carvalhos, pontilhada aqui, e acolá, por moinhos que já não moem grãos de centeio e milho. Seguindo por velhos caminhos rurais, deixamos o rio para trás e rapidamente entramos nas ruelas graníticas da aldeia, não sem antes havermos passado por viçosos lameiros, onde homens e mulheres labutam arduamente, ao invés, vacas maronesas vão pastando pachorrentamente ao longo do dia. No interior das povoações ainda é possível observar um punhado de casas rurais tradicionais, de dimensões modestas e escassas aberturas, alicerçadas com granito da região e revestidas por telhados de laje de ardósia, ou colmo.
De pé posto, continua-se a subir a pedregosa encosta da montanha. Revoltosos ribeiros insistem em rasgar a serra e, à sua volta, vão surgindo pequenos bosquetes de bétulas, rodeadas por abundantes manchas de pinheiro-silvestre. O som do vento é esporadicamente interrompido por um cada vez mais audível «tlimmmm», «tlimmm», «tlimmm». De um momento para o outro, centenas de cabras bravias surgem pela montanha acima, inspeccionando e remoendo os tufos de erva que encontram pelo caminho. É difícil ficarmos indiferentes à melodia que emana dos chocalhos, uma melodia triste, solitária, e, acima de tudo... livre."
Pedro Durães


Características do percurso:

. Trilho circular, não homologado, percorrido maioritariamente por caminhos rurais, florestais e de pé posto
. Grau de dificuldade moderado, extensão de aproximadamente 18 km, com desníveis um pouco acentuados
. Como pontos de interesse destaco o rio Ôlo, as aldeias de Pioledo, Assureira, Barreiro e Varzigueto e o planalto do Outeiro da Águia

Algumas fotografias do dia

Passagem sobre o leito do rio Ôlo

Caminho de ligação da aldeia do Barreiro com o rio Ôlo

 Aldeia da Assureira com os seus lameiros

Curral com telhado de colmo

Vidoal de montanha

Rebanho de caprinos devidamente acompanhado por cães de gado

Foto de grupo com as montanhas do Alvão como pano de fundo

Regresso à aldeia de Pioledo

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Serra da Cabreira- "No Nariz do Mundo"

21 de Janeiro de 2012


 «Nariz do mundo»? Estranho nome. Embora, por terras de Basto, ele esteja invariavelmente associado à boa (e farta) comida minhota, devido a um prestigiado restaurante local, a expressão é também sinónimo de montanha.
De manhã cedo, quando os primeiros raios de sol começavam a iluminar as encostas do vale da ribeira de Riodouro, pusemos as mochilas às costas e iniciamos mais uma marcha de montanha. Afortunadamente brindados com a promessa de um dia de céu limpo, e aproveitando uma luz fenomenal, o obturador das máquinas fotográficas começaram desde logo a disparar montanha acima.
Enquanto subíamos pausadamente a íngreme encosta da montanha, não deixamos de ficar surpreendidos pela imensa quantidade de socalcos que íamos encontrando pelo caminho, delimitados pelos já tradicionais muros de pedra sobreposta. Infelizmente, muitos destes lameiros encontram-se hoje em dia ao abandono, servindo apenas como recordação de um tempo longínquo, pautado pela fome e miséria, onde cada palmo de terra conquistado à montanha traduzia-se num pouco mais de comida em cima da mesa.
Transposto o vale, atingimos um vasto planalto, povoado por pequenos núcleos rurais, mas todos eles muito bem protegidos de eventuais visitas indesejadas, ou «turras», como lhes chamam os locais, tendo em conta o comité de boas vindas que recebemos! Em cada aldeia, um pelotão de cães de gado, na sua maioria de raça Castro Laboreiro, davam-nos as boas vindas com um sorriso bem «afiado». Felizmente, assim que davam pela nossa presença, os aldeãos vinham imediatamente ter connosco, aproveitando a ocasião para mais um «dedo de conversa». Conversa aqui, conversa acolá, e lá nos indicaram o melhor caminho para vermos o «nariz do mundo».
O «nariz do mundo» é, na realidade, um rochedo escarpado colocado no meio de um desfiladeiro, que com um pouco de imaginação e alguma boa vontade, assemelha-se a um nariz. Toda a paisagem envolvente do desfiladeiro é de uma beleza avassaladora. O interior do desfiladeiro é literalmente rasgado pela impetuosa ribeira de Cavez, um curso de água jovem, cheio de força e vida, que à medida que vai descendo o vale, cria em certos locais cascatas espectaculares, e, em contrapartida, criam-se poços naturais noutros pontos, convidando a refrescantes banhos nos meses quentes de Verão.
Aproveitando a beleza do cenário e instigados por um bichinho que começava a tomar conta do estômago, pousamos as mochilas e retiramos o farnel, para um descontraído almoço. No regresso à aldeia de Magusteiro, destaque para a passagem por um lindíssimo bosque, composto por um delicado e harmonioso equilíbrio entre diferentes tipos de resinosas (pinheiro silvestre) e folhosas (carvalhos, bétulas), dica de um simpático pastor local… privilégios cedidos apenas aqueles «loucos» que simplesmente adoram andar por esses montes fora.
Pedro Durães

Características do percurso:

. Trilho circular de ligação entre 2 percursos homologados ("Percurso do Alto do Esporão" e "Trilho do Pisão")
. Grau de dificuldade moderada, extensão de aproximadamente 16 km, com desníveis um pouco acentuados
. De entre os vários pontos de interesse destaco o vale da ribeira de Riodouro, os núcleos rurais de Magusteiro, Juguelhe, Formigueiro e Moscoso e o desfiladeiro do «nariz do mundo»

Algumas fotografias do dia

Amanhecer no vale da ribeira de Riodouro
 
«Jogos» de luz e sombra

Início da formação do vale da ribeira de Riodouro, com o alto das Torrinheiras no canto superior esquerdo

Aldeia do Formigueiro

Calçada de acesso aos lameiros na aldeia do Formigueiro

O «nariz do mundo»

Foto de grupo com o desfiladeiro do «nariz do mundo» como pano de fundo

Passagem por um lindo bosque no regresso à aldeia de Magusteiro